O sal e seus múltiplos sabores

O sal e seus múltiplos sabores

por Stella Maximo Steinwascher 23/10/2018 Artigos O sal e seus múltiplos sabores - Stella Maximo Steinwascher
Tags: alma, alquimia, psicologiajunguiana

Todo segredo reside no sal comum preparado. Quem conhece o sal, também sabe acerca dos mistérios dos antigos sábios.

(JUNG, CG  OC vol. XIV/1 parag. 234).

Presente em quase todos os lugares do planeta, o sal tem papel preponderante em nossa história, evolução, organização social e cultural, portanto, em nosso imaginário.

Um tratado de 1770, citado por Ernest Jones (1923, p.109) afirma ser o sal a quintessência da terra, um tesouro da natureza, essência da perfeição e o paragon, ou seja, exemplo ímpar de preservação. Hoje, de certo modo, a ciência moderna confirma essa proposição, colocando mais uma vez luz na matéria sal, que é considerado o quinto elemento, somando-se ao ar, à terra, ao fogo e à água.

A maneira como os homens perceberam a necessidade do sal ainda é um mistério. Uma hipótese é de que, em nosso processo evolutivo, o cérebro foi talhado para gostar de sal, precisamente do sódio, e programado para buscá-lo: “o apetite por este nutriente e a sede são irmãos gêmeos siameses” (CHRISTANTE, 2016, p.1).

Em seu livro Sal: uma história do mundo, Kurlansky (2011) refere-se à coincidência do momento em que o homem passa a procurar o sal e                   incluí-lo na alimentação com a agricultura/plantio e sua fixação à terra, fase do pastoril – diferentemente dos nômades/caçadores, que consumiam baixíssimas quantidades dessa substância em suas tribos. De fato, os pesquisadores não encontraram entre eles nem vestígios de fabricação do sal, tão pouco de sua permuta.

Outro registro revela que, com a descoberta do sal como conservante, época também da domesticação dos animais[1], novos hábitos e condições de vida foram instalados, levando a um aumento no consumo dessa substância (KURLANSKY, 2011).

Quanto à ingestão do sal, pesquisas mostram que os romanos chegaram a consumir 25 gramas diárias, e os suecos do século XVI, aproximadamente, 100 gramas – quantidades maiores das que são consumidas na atualidade, em média 11 gramas. Esta quantidade, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, ainda é alta, pois precisamos apenas de 5 gramas… (CHRISTANTE, 2016).

Percebemos nesses estudos que há uma íntima relação entre o homem e o sal, pois, à medida que homem encontra novas formas de estar na natureza, a necessidade e o uso dessa substância é alterada, como se, de alguma forma, a nossa sobrevivência dependesse desses ajustes.

Tanto que, historicamente, durante milhares de anos, a procura pelo sal representou um desafio – eram necessárias longas e perigosas viagens para encontrá-lo e transportá-lo.

Foi uma das primeiras mercadorias a serem comercializadas, e sua produção alavancou a criação das primeiras indústrias, o primeiro monopólio estatal, e estimulou as obras públicas, retratando a extensão de sua necessidade e a dificuldade para obtê-lo. Nessa época, o sal tinha um alto valor econômico, era sinônimo de riqueza e usado como moeda de troca, sendo nomeado de “ouro branco”. Disputas, conflitos e até guerras foram motivadas por um bocado de sal (KURLANSKY, 2011).

Ao longo do tempo, a relação do homem com esse elemento ganhou novos contornos e, com isso, diferentes usos e propósitos.  Sua acessibilidade foi se tornando mais fácil, inclusive, hoje, é um produto barato e facilmente encontrado.

Contudo, sua potência ainda permanece viva no imaginário da psique humana, tanto que a relação do homem com o sal é carregada de simbolismos, retratada praticamente em todas as culturas e nos mais diferentes usos e propósitos. Assim, nesta relação homem-sal, há um legado arquetípico que carrega uma história e, portanto, a torna a história de cada um de nós. Ao conhecer o que imaginamos sobre o sal, podemos também nos imaginarmos.

De fato, o Sal despertou, e ainda desperta, o interesse de muitos estudiosos, tanto da mitologia, das religiões, passando pela alquimia, filosofia, psicologia.

Os alquimistas, cientistas da antiguidade, estudaram o sal por ser este um dos elementos da natureza que se destaca por sua pureza – característica esta que, por sinal, se apresenta na própria palavra sal, considerada de “sangue puro[2]”, por não derivar de nenhuma outra.

Por sua pureza, para os alquimistas o sal carrega o aspecto da incorruptibilidade, aquilo que não se altera, que não se corrompe.  Como o objetivo da alquimia é explorar, entender e transformar as matérias mais básicas, consideradas também corruptíveis, em algo mais valioso, isto é incorruptível, o sal se torna importante em seus estudos e trabalhos.

Segundo Ernest Jones[3], que realizou uma extensa e abrangente pesquisa sobre o sal e seus diversos significados nas diferentes culturas, esse elemento está associado à cura e prevenção de doenças, incluindo aquelas por influências ocultas. Como na parábola citada anteriormente, em que foi usado para fins médicos e de saúde, tanto que a palavra latina salus (saúde) sugere uma relação com a palavra sal (JONES, 1923).

O sal e sua propriedade de conversação dos alimentos transformou o modus operandi do ser humano e, ainda hoje, em nosso dia-a-dia, o utilizamos para conservar alguns alimentos. Essa propriedade remete, também, à durabilidade das coisas e, no imaginário de algumas culturas, à durabilidade nas relações de amizade, sendo o sal usado para selar pactos de lealdade (JONES, 1923)

Para os britânicos, durante séculos, o sal foi usado em rituais de socialização, sendo costume carregá-lo para entrar numa casa nova. Na Alemanha, é usado para celebrar a renovação das bênçãos à população, quando os cidadãos saem às ruas com um saleiro feito de marzipã (KURLANSKY, 2003).

Entre os judeus, o sal é símbolo da eterna aliança com Deus. E no cristianismo, é usado no sacramento do batismo, desde o século IV, sendo associado à longevidade e permanência, verdade, purificação e sabedoria. Considerado um dos objetos mais sagrados, encontramos em Mateus, v.5,13:  “sois o sal da terra”,  e Jung menciona outra passagem Colossenses v.4,6: “ A vossa palavra seja sempre agradável, temperada de sal, para saberdes como convém responder a cada um. (…)”;  e em referência a esses trechos bíblicos, diz: “O sal é aqui indubitavelmente a compreensão, o entendimento e a sabedoria” (OC vol.XIV/1 /1971/1985parag.318/9).

O sal é também relacionado à boa sorte, sendo costume jogá-lo na casa nova antes da mudança, para afastar o mal e os demônios, mau-olhado e más influências, fazendo parte nas crenças encontradas na Arábia e Japão, Índia e na Pérsia; mesmo hoje em dia, encontramos esses mesmos costumes na cultura brasileira (JONES, 1923).

O sal também carrega a ideia de felicidade por coisas materiais, por estar associado, no princípio, com dinheiro e riqueza, como já dito anteriormente. Na Roma antiga, os soldados eram pagos com sal, o que provavelmente está na origem da palavra salarium. Moedas de sal existiram na África do século VI, na Inglaterra, China e Tibet, na idade média.  Na Áustria, uma de suas moedas recebe o nome de Heller, oriunda da antiga palavra alemã Halle, Sal (JONES, 1923).

O sal tornou-se um símbolo da procriação, fertilidade, por remeter à água salgada do mar, que é um ambiente propício à reprodução, a qual foi “ “ilustrada por Eliseu na ação de jogar sal na fonte de Jericó (2 Reis II. 21): [assim diz o senhor, eu ter curado estas águas e para o futuro que não será a ocasião ou de morte ou esterilidade]” (apud JONES, 1923, p.113).

Na Bélgica, o sal é misturado ao alimento de mulheres grávidas, de modo a tornar mais fácil o nascimento. Já na Escócia, é colocado no primeiro leite após o parto, com o objetivo de assegurar uma oferta abundante de bom alimento ao recém-nascido.

O sal também já foi visto como substância estimulante do sistema nervoso, possuindo o atributo de despertar paixão e desejo. Os romanos denominavam um homem apaixonado salax, ideia que ainda sobrevive entre nós quando dizemos que o cozinheiro que salga excessivamente um prato deve ser bom no amor. Na Bélgica, o costume de visitar uma namorada na noite depois dos festivais é chamado de transformar amor em sal (JONES, 1923).

Assim, mais uma vez, o sal aparece aqui como substância imprescindível para a vida; sem ele, tudo fica sem sabor (KUSLANSKY, 2003)

Com tanta abrangência e diversos significados, fica fácil entendermos por que, na era grega, segundo Homero, o sal era considerado uma substância divina. Também Platão o descreve como especialmente caro aos deuses, sendo usado para invocá-los nos rituais de sacrifício e oferendas. Na mitologia romana, a ninfa Salácia[4] é a personificação da água salgada do mar, a rainha dos oceanos, também conhecida por Anfitrite na mitologia grega. (JONES, 1923)

No México, entre os Nahus, há uma Deusa do Sal, Huixocihuatl. Na mitologia japonesa, Izanagi remexe o mar com sua lança, e com ajuda do sal extraído das águas, constitui a primeira ilha: onogorojima (Chevalier, 2000).

Na Finlândia, o suor da divindade Wainemoinen era um bálsamo para todas as doenças, o mesmo acontecia com Ra, deus egípcio.

Na Escandinávia (mitologia nórdica), os Gigants Frost foram nascidos do suor do gigante Ymir[5], (JONES, 1923). Aqui, temos a ligação: sal, suor e lágrimas.

O sal traz um sentido paradoxal e dúbio, como nos mostram os romanos, em oposição à fertilidade, quando jogavam sal nas terras das cidades que destruíam, de modo a tornar o solo para sempre estéril. Não resta dúvida de que é uma substância forte, tanto que, dependendo do manejo do sal, adoecemos e nossa terra também se torna improdutiva, como ressalta Guillaume de Saint Thierry, inspirando-se no salmo 106, 34: “A terra é infértil por ser salgada”; diz ainda Jeremias, 17, 6 “Tudo que é salgado é amargo”. A água salgada é, portanto, uma água de amargura que se opõe à agua doce fertilizadora” (apud CHAVALIER, 2000, p.798).

A alquimia já trazia isso em seus tratados, como podemos ver no Rosarium Philosophorum (apud JUNG, CG OCXIV/1, 1971/ 1985,parág. 234 XIV/1):  “todo segredo reside no sal comum preparado”; aqui, penso que se trata do segredo de como dosá-lo. Jung complementa em outra citação: “quem conhece o sal e sua solução, conhece o segredo oculto dos velhos sábios” (JUNG,CG OC vol. XII, 1992/2007 parag 359).

Acessamos, até aqui, a pluralidade de sentidos e significados do Sal nas diversas culturas, em diferentes épocas da humanidade e nas muitas áreas do conhecimento, o que nos permitiu reavivarmos a relação homem-sal-natureza, num resgate da relação que permeia o macrocosmo e o microcosmo. Nesta relação, vemos o mundo e seus elementos providos de qualidades e, portanto, de alma, numa íntima correspondência com o nosso mundo interno, de modo a refletirmos acerca dos elementos dos quais somos formados – e o sal é um deles.

Diferentes movimentos se fazem dentro de nós, e uma nova ordem de consciência passa a tonalizar nossas atitudes, sendo possível vislumbrar outras formas de encarar o envelhecer que se faz em nós, em busca de uma maior sintonia com a ordem natural da vida. Assim, ficamos menos submetidos à subjetividade egoica que pessoaliza os fatos e acontecimentos da vida, como também do envelhecer, reduzindo-os até torná-los inanimados e sem alma.

Bachelard (2013, p.210), nos  ajuda a entender melhor esta perspectiva, quando escreve “(…) o homem é um pequeno mundo que reproduz o mundo em seus órgãos, mas nele vive  um sal que o especifica ainda mais”. É o sal que permite a ligação com a nossa essência, nossa singularidade como também com a nossa materialidade e mortalidade”.

Ao nos dedicar a imaginar o sal em nossas vidas estamos acolhendo, portanto, o que há de mais comum em nós, e isso inclui a forma como podemos experimentar nossas feridas e dores. Com olhos da psicologia, elas passam a ter um corpo psíquico, não sendo mais apenas um suceder de circunstâncias.

Termino com o sal na literatura. A significativa relação homem-sal é,  ungida pelo amor, no conto “Eu te amo mais que o sal”[6]

Certa vez, um Rei que tinha três filhas, perdeu sua esposa, o que muito entristeceu a todos do reino, que o admiravam. Ele queria ver suas filhas felizes e cuidava muito bem delas, dizendo que, quando morresse, uma das três se tornaria Rainha. Passados alguns anos, começou então a pensar em sua sucessão: as moças eram muito boas e o amavam, mas o pai precisava testar qual seria a mais indicada para ocupar o trono. Então, em uma noite, após o jantar, sentenciou: “Quero que me digam o quanto me amam”. A primeira falou que o amava mais que todos os diamantes; a segunda, mais que todo o dinheiro do mundo e a caçula, mais do que o sal. Indignado e sentindo-se insultado com a resposta da caçula, considerou que ela não o amava tanto como as outras duas, já que o comparou com a coisa mais baixa da terra, e a expulsou do reino.

Aqui, podemos ver o quanto também este Rei estava apegado às riquezas materiais e corrompíveis. A filha, no entanto, aceitou seu destino e se foi. Na floresta, foi abrigada por uma velha acompanhada por um grande gato que sabia distinguir quem era do bem e do mal; logo, ele se aconchegou no colo da moça, levando a velha a concluir que ela era do bem. A caçula então contou sua história, e a velha lhe disse que o pai precisava de uma lição. Passado algum tempo, o rei, que gostava tanto de assados, não conseguia comer mais nada, pois o sal se acabara em seu reino. Desesperado e adoentado por não conseguir mais se alimentar, a velha-bruxa fez a filha caçula parecer uma mendiga e lhe deu um saquinho de sal para levar ao pai. Chegando lá, ainda em soberba, o Rei retrucou: “O que uma mendiga pode me dar?”. Quando viu que era sal, quis recompensá-la, mas a filha falou que nada queria, pois o amava mais que o sal… Ao perceber a importância desse elemento, o Rei pôde enfim reconhecer o amor da filha, e após a morte do pai, ela então se tornou Rainha por muitos anos.

Hillman (2011) afirma que cada um de nós possui minas de sal, que são nossas minas de sabedoria nelas podemos encontrar novos sentidos para nossas histórias e portanto, para nossa vida.

 

[1] Esse processo ocorreu há cerca de 9 mil anos a.C. (Neolítico), no Próximo Oriente, quando as bases econômicas se transformaram gradualmente, passando a existir agricultura e pastorícia e, consequentemente, uma sedentarização do Homem, até aqui nômade Disponível em https://www.mundodosanimais.pt/animais-pre-historicos/a-presenca-dos-animais-na-historia-do-homem – acessado em 28/10/2016.

[2] As palavras são chamadas de primitivas quando não se formam partindo de nenhuma outra, tem radical próprio e dão origem a outras. Exemplo: Sal, mar, pedra. Disponível em http://portuguesaplicado.blogspot.com.br/2010/08/formacao-das-palavras-1-parte derivacao.html  acessado em 28/10/2016.

[3] Amigo e biógrafo de Freud, publicou o estudo: O significado simbólico do sal – no folclore e na superstição (tradução livre, em anexos da tese:  “Sal: uma abordagem sobre o elemento material na obra de arte”, de Sergio Augusto de Oliveira, 2014, Universidade de São Paulo). https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/110342/000796356.pdf

 [4] No mito, Salácia foi prometida em casamento ao grande rei dos mares, Netuno; porém, antes do ato se concretizar, Salácia revoltou-se e escondeu-se no fundo do oceano. Netuno mandou todas as criaturas marinhas do mundo em sua busca. Foi bem-sucedido um golfinho que encontrou a ninfa, entregando-a para casamento ao grande rei.

[5] O mito conta que, enquanto Ymir dormia, o suor de seu corpo formou o primeiro de sua prole de gigantes de gelo glacial. Disponível em http://arcanoteca.blogspot.com.br/2014/02/mitologia-nordica-ymir.html acessado em 02.2017

[6] Esse conto é citado no livro Sal, a história do mundo de Mark Kurlansky, 2003. A versão completa está disponível em  http://claudiacantoeconto.blogspot.com.br/2009/10/eu-te-amo-mais-que-ao-sal.html,  acessado em 28/05/2016.