Conto – La Loba - do livro Mulheres que correm com os lobos

Conto – La Loba

do livro Mulheres que correm com os lobos

por Clarissa Pínkola Estes 20/07/2016 Contos Conto – La Loba - do livro Mulheres que correm com os lobos - Clarissa Pínkola Estes
Tags: alma, auto conhecimento, conto, feminino, reflexão

Estamos sempre continuando uma história… Com este conto La Loba, temos a oportunidade de escrever mais um capítulo, a partir de uma conversa com a mulher que existe em cada uma de nós, e que pode,  também, ser chamada de: a outra, a amiga, a mulher selvagem, a bruxa, a esquisita, a anima e ALMA. 

Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fadas da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou a procura de algo.

Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.

Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço. Dizem que foi vista viajando para sul, para o Monte Alban ( antigo México) num carro incendiado com a janela traseira arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente com caminhoneiros até Morelia , México, ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca, com galhos de lenha de estranhos formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera ( a Mulher dos Ossos); La Trapera ( a Trapeira) e La Loba ( a Mulher Loba).

O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conversa especialmente o que corre o risco de se perder no mundo. Sua caverna é cheia dos ossos de todos os tipos de criatura do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.

Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montanãs e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e, quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.

Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. E aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pêlos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.

La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.

E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.

Em algum ponto da corrida, que pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.

Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr-do-sol, e que sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar com você e lhe ensinar algo – algo da alma.

Referencia bibliográfica: As mulheres que correm com os lobos. Clarissa Pínkola Estés. Editora Rocco. Edição 12– 1999.