Fracasso

Fracasso

por Rafael Cadenas 06/05/2015 Carreira e Preparo para aposentadoria Fracasso - Rafael Cadenas Faça sua reflexão

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Tags: carreira, comportamento, fracasso

Numa sociedade que valoriza os sucessos, resultados e as conquistas de uma maneira quase narcísica, falar de fracassos pode não fazer tanto sentido. Contudo, a maneira como Rafael Cadenas coloca esta questão em sua poesia,
nos presenteia com uma perspectiva que colabora nos diálogos que temos com as faces mais reprimidas, escondidas e sombrias da nossa vida. Portanto vale a leitura, reflexão e até um post na geladeira, para quando estiver frente à um fracasso, poder lembrar da sua importância e significado.

 Fracasso

 Tudo o que tomei como vitória é só fumaça.

Fracasso, linguagem do fundo, pista de outro espaço mais

exigente, é difícil ler a tua letra nas entrelinhas.

Quando punhas tuas marcas na minha fronte, jamais pensei

na mensagem que trazias, mais preciosa que todos os sucessos.

Teu flamejante rosto me perseguiu e eu não soube que era para me salvar.

Para meu próprio bem relegaste-me aos cantos, negaste-me fáceis êxitos, fechaste-me as saídas.

Era a mim que querias defender, não me outorgando brilho.

De puro amor por mim dirigiste o vazio que tantas noites me fez falar febril a uma ausente

Para me proteger cedeste o passo a outros, tens feito com que uma mulher prefira,

alguém mais determinado, afastaste-me de tarefas suicidas.

Tu sempre vieste para me salvar.

Sim, teu corpo chagado, cuspido, odioso, recebeu-me em minha mais pira forma para me entregar à nitidez do deserto.

Por loucura eu te maldisse, te maltratei, blasfemei contra ti.

Tu não existes.

Foste inventado pela delirante soberba.

Quanto de devo!

Promoveste-me a uma nova classe, limpando-me com uma esponja áspera, lançando-me a meu verdadeiro campo de batalha, cedendo-me as armas que o sucesso abandona.

Conduziste-me pela mão para a única água que me reflete.

Por ti eu não conheço a angústia de representar um papel, de manter-me à força em um escalão, de subir com esforços próprios, disputar pro hierarquias, inflamar-me até explodir.

E fizeste-me humilde, silencioso, rebelde.

Eu não te canto pelo que és, mas por aquilo que não me deixaste ser. Por não me dar outra vida. Por haver-me limitado.

Deste-me apenas nudez.

Certo que me ensinaste com dureza e tu mesmo me cauterizaste! Mas também me deste a alegria de não temer a ti.

Obrigado por tirar-me a densidade em troca de tuas rudes palavras.

Obrigado por me privar das vaidades.

Obrigado pela riqueza a que me forçaste,

Obrigado por construir com barro a minha morada.

Obrigado por apartar-me

Obrigado.

Fonte: Poema extraído do livro Ansiedade Cultural de Rafael Lopez-Pedraza.

Sobre Rafael Cadenas – Professor, poeta e ensaísta venezuelano.