Conto – A pele de foca - As mulheres que correm com os lobos

Conto – A pele de foca

As mulheres que correm com os lobos

por Clarissa Pínkola Estés 18/05/2015 Contos Conto – A pele de foca - As mulheres que correm com os lobos - Clarissa Pínkola Estés
Tags: contos, mulher

Nós, mulheres, temos diversos papéis a serem cumpridos, o que pode acabar nos deixando mais versáteis, ágeis, complexas e intensas. Além disso, essa maneira de ser pode nos levar a ancorar nossos comportamentos em altos níveis de eficiência, tornando-se assim, uma armadilha. Então, é importante reservar um tempo para refletirmos mais sobre nossos sentimentos, emoções e limites, os quais normalmente deixamos de lado, justamente pela correria do dia-a-dia. Os contos que trago para as Oficinas de Reflexão, são uma maneira de pensarmos não somente em nossos papéis, resultados ou fracassos, mas principalmente em nossa essência e alma.

Pele de foca, pele da alma

Houve um tempo, que passou para sempre e que irá logo estar de volta, em que um dia corre atrás do outro de céus brancos, neve branca…e todos os minúsculos pontinhos escuros ao longe são pessoas, cães ou ursos. Nesse lugar, nada viceja gratuitamente. Os ventos são fortes e as pessoas se acostumaram a trazer consigo seus parkas, mamleks e botas, já de propósito.. Nesse lugar, as palavras se congelam oa ar livre e frases inteiras precisam ser arrancadas dos lábios de quem fala e descongeladas junto ao fogo para que as pessoas possam ver o que foi dito. Nesse lugar as pessoas vivem na basta cabeleira de velha Annuluk, a avó, a velha feiticeira que é a própria terra. E foi nessa terra que vivia um homem…um homem tão solitário que com o passar dos anos as lágrimas haviam aberto fundos abismos no seu rosto. Ele tentava sorrir e ser feliz. Ele caçava. Colocava armadilhas e dormia bem. No entanto, sentia falta de companhia. Às vezes , lá nos bancos de areia, no sei caiaque, quando uma foca se aproximava, ele se lembrava de antigas histórias sobre como as focas haviam um dia sido seres humanos e como o único remanescente daqueles tempos estava nos olhos, que eram capazes de retratar expressões, aquelas expressões sábias, selvagens e amorosas. Às vezes ele sentia nessas ocasiões uma solidão tão profunda que as lágrimas escoriam pelas fendas já tão gastas no seu rosto. Uma noite ele caçou até depois de escurecer, mas sem conseguir nada. Quando a lua no céu e as banquisas de gelo começaram a reluzir, ele chegou a uma enorme rocha malhada no mar e seu olhar aguçado pareceu distinguir movimentos extremamente graciosos sobre uma velha rocha. Ele remou lentamente e com os remos bem fundos para se aproximar, e lá no alto da rocha imponente dançava um pequeno grupo de mulheres, nuas como no primeiro dia em que se deitaram sobre o ventre da mãe. Ora, ele era um homem solitário, sem nenhum amigo humano a não ser na lembrança – e ele ficou olhando. As mulheres pareciam seres feitos de leite da lua, e sua pele cintilava com gotículas prateadas como as do salmão na primavera. Seus pés e mãos eram longos e graciosos. Elas eram tão lindas que o homem ficou sentado, atordoado, no barco, e a água nele batia, levando-o cada vez mais para junto da rocha. Ele ouvia o riso magnífico das mulheres…pelo menos elas pareciam rir, ou seria a água que ria às margens da rocha? O himem estava confuso, por se sentir tãodeslumbrado. Entretanto, dispersou-se a solidão qie lhe pesava no peito como couro molhado e quase sme pensar, como se fosse seu destino, ele saltou para a rocha e roubou uma das peles de foca ali jogadas. Ele se escondeu por trás de uma saliência rochoso e ocultou a pele de foca dentro do seu qutnquq, parka. Logo, uma das mulheres gritou numa voz que era mais linda que le já ouvira…como as baleias chamando na madrugada…ou não, talvez fosse mais parecida com os lobinhos recém-nascidos caindo aos tombos na primavera…ou então, não era algo melhor do que isso, mas não fazia diferença porque…o que as mulheres estavam fazendo agora? Ora, elas estavam vestindo suas peles de foca, e uma a uma as mulheres-focas deslizavam para o mar, gritando e ganindo de felicidade. Com excessão de uma. A mais alta delas procurava por toda a parte a sua pele de foca, mas não a encontrava em nenhum lugar. O homem sentiu-se estimulado- pelo que, ele não sabia. Ele saiu de trás da rocha, dirigindo um apelo a ela -Mulher…case-se …comigo Sou um …homem sozinho -Ah – respondeu ela.- Eu não posso me casar, porque sou de outra natureza, pertenço aos que vivem temeqvanek, lá embaixo. -Case-se …comigo –insistiu o homem.- Em sete verões, prometo lhe devolver sua pele de foca e você poderá ficar ou ir embora, como preferir. A jovem mulher-foca ficou olhando muito tempo o rosto do homem com olhos que ,s e não fossem sias origens verdadeiras, apreciam humanos. -Irei com você – disse ela, relutante. – Dentro de sete verões, tomaremos a decisão. E assim, com o tempo, tiveram um filho a quem deram o nome de Ooruk. A criança era ágil e gorda. No inverno, a mãe contava a Ooruk histórias de seres que viviam no fundo do mar enquanto o pai esculpia um urso em pedra branca com uma longa faca. Quando a mãe levava o pequeno Ooruk para a cama, ela lhe mostrava pelo buraco da ventilação as nuvens e todas as suas formas. Só que, em vez de falar das formas do corvo, do urso e do lobo, ela contava histórias da vaca-marinha, da baleia, da foca, do salmão… pois eram essas as criaturas que ela conhecia. No entanto, à medida que o tempo foi passando, sua pele começou a ressecar. A princípio , ela escamou e depois passou a rachar. A pele das suas pálpebras começou a descascar. O cabelo da sua cabeça, a cair no chão. Ela se tornou naluaq, do branco mais pálido. Suas formas arredondadas começaram a definhar. Ela procurava esconder seu caminhar claudicante. A cada dia seus olhos, sem que ela quisesse, iam ficando mais opacos. Ela passou a estender a mão para tatear porque sia vista estava escurecida. E as coisas iam dessa foram até uma noite em que o menino Ooruk despertou ouvindo gritos e se sentou ereto nas cobertas de pele. Ele ouviu um rígido de urso, que era seu pai repreendendo a mãe. Ouviu também, um grito como o da prata que ressoa com uma pedra, que era sua mãe. -Você escondeu minha pele de foca há sete longos anos, e agora está chegando o oitavo inverno. Quero que me seja devolvido aquilo de que sou feita – gritou a mulher-foca. -E você mulher-vociferou o marido.- Você me deixará se eiu lhe der a pele. – N!ão sei o que eu faria. Só sei que preciso daquilo a que pertenço. -E você me deixaria sem mulher, e a seu filho, sem mãe. Você é má. Com essas palavras, o marido afastou com violência a pele da porta e desapareceu noite adentro. O menino adora a mãe. Ele tinha medo de perde-la e, por isso, chorou até dormir… só para ser acordado pelo vento. Um vento estranho… que parecia chama-lo Referencia bibliográfica: As mulheres que correm com os lobos. Clarissa Pínkola Estés. Editora Rocco. Edição 12– 1999.