o que não pode morrer nunca

o que não pode morrer nunca

por Clarissa Pínkola Ester 13/12/2018 Biblioteca o que não pode morrer nunca -  Clarissa Pínkola Ester
Tags: contos, literatura, natal

      “Era uma vez,  há  muito,  muito tempo,  na  época em que os bichos ainda falavam e  os  humanos ainda  conseguiam entender a língua dos animais, entender  a língua  dos, um pinheirinho  que,  embora  pequeno em estatura, era imenso em espírito.

 Ele vivia nas profundezas de uma floresta, cercado de árvores muito maiores, muito mais majestosas e mais antigas do que qualquer árvore jamais conhecida até então.

A cada inverno, pais, mães e seus filhos penetravam na floresta em velhos  trenós  de  madeira.  Com muita felicidade  e  animação,  eles cortavam algumas das  árvores  de  tamanho  médio  e  as  levavam embora.  Os  cavalos veneráveis que puxavam  os  trenós  resfolegavam, e  os  sinos  nos  seus arreios retiniam. O riso das crianças e dos adultos ecoava pelo bosque inteiro.

Ah,  sim,  o  pinheirinho  ouvira  sussurros  entre  as  árvores  mais velhas, as que velhas, as eram  altas  demais  e  grandes  demais  para  serem  derrubadas pelo machado pelo  e  arrastadas  dali  — ele ouvira a história de  que  as  árvores cortadas eram levadas para um lugar maravilhoso, chamado casa.

Ali, eram tratadas com o máximo respeito, afagadas por muitas mãos e postas numa  água  que  lhes  aplacava  a  dor.  Depois, ao que  se  dizia,  uma família inteira de pessoas sorridentes se reunia ao seu redor. Elas enfeitavam a árvore com  objetos  pequenos  e lindos:  pequenos  globos  feitos  de fita  com amêndoas  dentro,  doces  e outras  guloseimas.  Velinhas esplêndidas  eram acesas e colocadas nos galhos e ramos da árvore. Finalmente, decorada com balas, guirlandas de  frutas  e  às  vezes  até  enfeites  de  vidro  e  minúsculos espelhos  coloridos, a  árvore  se  tornava  o  convidado  mais  reverenciado da casa. Era de  fato,  uma  das  glórias  mais  magníficas  que  se poderia  um  dia conceder a uma árvore.

Entre as árvores mais velhas que conheciam esses assuntos, dizia-se que essa era, para os humanos envolvidos, uma época de enorme alegria, pois lindas criancinhas vinham cantar, o fogo ardia em cada lareira e mesmo as estrelas no céu pareciam brilhar ainda mais.

 De acordo com a descrição das mais velhas, em toda a parte moças e  rapazes  podiam  ser  vistos apressando-se  e  carregando  para  o  salão  o alimento que  tivessem para  compartilhar  com  todos.  As velhas usavam  seus melhores aventais  brancos.  Os velhos, seus  melhores  ternos  e  chapéus pretos. E todas as mulheres usavam seus melhores vestidos pretos. Todos os meninos usavam calças  meninos usavam  calças que  sempre  davam  coceira,  e  as  meninas, saias perfeitas  para  ensaiar  mesuras.

 Ah, tudo aquilo parecia perfeitamente maravilhoso. E era com isso que o pinheirinho sonhava

 Ano  após  ano,  o pinheirinho esperava  que  o  verão  passasse,  que  o  outono chegasse e afinal viesse a beleza do inverno. Quando sentia o frio cortante dos ventos, se alegrava. Ficava então felicíssimo  no  seu  belo  manto  verde  que  se  enchia  mais e mais a  cada  ano  que passava. E, também a cada ano,  no  inverno, os  trenós  vinham e cortavam as árvores novamente, enquanto as crianças gritavam e faziam bonecos de neve com formato de anjo nos grandes montes acumulados pelo vento.

 Apesar de o pinheirinho ser tímido, ele não conseguia se conter e a cada  ano  gritava  com  mais  e mais atrevimento: “Venham  me  escolher!  Olhem  para mim!  Adoro  crianças.  Adoro  essa comemoração  fabulosa.  Olhem  para  mim! Por favor! Venham me escolher!”

Ano  após  ano,  porém,  ninguém  o  escolhia.  Logo, muitas  árvores haviam sido retiradas da floresta ao seu redor. Agora o parente mais próximo estava a  uma  boa  distância,  e  o  pinheirinho  estava  bastante  só,  mas também em pleno sol e assim ele  foi crescendo, crescendo,  até  ficar muito mais alto do que antes.

No inverno  seguinte,  voltaram os cavalos  puxando  um trenó  com  o pai, a mãe e crianças risonhas. Os cavalos empertigados passaram direto pelo pinheirinho, pois o pai estava avaliando um denso aglomerado de árvores mais ao  longe.  “Espere”,  gritou  uma  das  crianças,  “aquele  ali  atrás, aquele  ali sozinho.” E o pinheirinho começou a tremer de esperança. “Ah, isso mesmo! Cheguem mais perto! Olhem para mim! Por favor! Venham me escolher!”  O pinheirinho se esforçava para ficar mais reto e mais alto. E a família deve ter ouvido alto.  o  que  dizia,  pois  o  trenó  parou,  os  cavalos deram  meia-volta e logo a família estava  abrindo  caminho  na  neve espessa para examinar a árvore.

“Ah,  olhem  como  os  galhos  são cheios  de  vida”,  exclamou  uma criança que tinha as bochechas perfeitamente rosadas. “Ah, vejam como essa árvore está verde  e vigorosa”, disse a  mãe.  “É”, respondeu o  pai,  “essa aqui não parece nem alta nem baixa demais, está perfeita para nós.”

E  o  pai  apanhou  seu  machado  no  trenó.  Com  o  primeiro  golpe,  o pinheiro  sentiu  a  maior  dor  de  toda  a  sua vida.  “Ai”,  gritou  a  árvore, “vou cair.” E nesse exato momento, ele desmaiou. O machado continuou os golpes até que a árvore fosse separada da sua raiz, derramando grande quantidade de neve ao tombar. Muito  mais  tarde,  o  pinheiro  voltou  a  si no  reboque  que  vinha dançando atrás do trenó. Tilintavam os sininhos nos arreios dos cavalos, e o pinheiro  ouvia  a  conversa  e  o  riso  das pessoas.  A  dor  mais  terrível  parecia estar  passando  agora;  além disso,  ele  tinha  uma  vaga  lembrança  de  que estavam indo a alguma parte, a algum lugar importante, lindo e maravilhoso, a um lugar que ele havia desejado ver todos os dias e todos os anos da sua vida passada.

Afinal quando ia escurecendo, o trenó com a família e a árvore no reboque estacionou  diante  de  um  chalé  coberto  de  neve.  Um velho  e  uma velha  saíram  pela  neve  adentro  e  se  aproximaram  do  reboque, exclamando: “Que árvore linda, linda, tão alta e tão cheia. Do tamanho exato. Perfeita.”  “Ah”,  pensou  o  pinheiro,  “como  é  bom  ser  bem-vindo.  Eu me pergunto  se  este  não  é  o  lugar  aonde  alguns  dos meus  vieram  ao  longo  dos anos. Ah, espero voltar a vê-los em breve.”

 Os  velhos  o  tiraram  do  reboque  com  mãos  cuidadosas.  Eles  o admiraram,  o  afagaram,  virando-o  de  um  lado  e  do  outro. Mergulharam o tronco cortado da árvore numa balde de água fresca que aliviou grande parte da sua dor. E quando  apagaram  os  lampiões,  o pinheiro,  que  amava  a  profunda escuridão  da  floresta,  começou  a amar  também  a  escuridão  daquela  casa.

 Apesar de estar acostumado a ver o céu noturno inteiro, cheio de estrelas, e agora  só  enxergar  um pedacinho  de  céu  através  de  uma  pequena  vidraça  na janela,  havia uma  estrela  que  cintilava  mais  do  que  as  outras.  Ao  vê-la,  o pinheiro pressentiu a promessa de que muito ainda estava por acontecer. Com esses  pensamentos,  ele,  como  o  restante  da  casa,  logo adormeceu num sono profundo e feliz.

Bem cedo na manhã do dia seguinte, houve muito barulho e rebuliço com todo  mundo  se  cumprimentando,  se  queixando  e  tagarelando.  Alguém estava  tirando  a  poeira  do  balde  de  aparas  de  lenha  para  enchê-lo ruidosamente.  Os  cachorros  entraram  latindo  de  alegria,  seguidos pelas crianças,  depois  a  mãe  e  o  pai,  os  mais  velhos  e  também outras  crianças  e amigos, todos trazendo muitas caixas.

A  árvore  esperava,  literalmente  prendendo  a  respiração  de  tanta emoção.  As  pessoas  tiraram  as  tampas  das  caixas,  e  dentro  delas havia enfeites  de todos  os  formatos  e  tamanhos,  feitos  de  vidro finíssimo.  Havia guirlandas  de  frutinhas  e  velas  com  pequenos  papéis coloridos  em  copinhos de vidro.

 Em  toda  a  sua  volta,  a  árvore  foi adornada  e  enfeitada  com  esses objetos. E depois, que maravilha! Dezenas de velas foram acesas, uma após a outra, e arrumadas em círculos e espirais até os galhos mais altos, deixando o pinheiro em glória absoluta.

 “Ah,  isso  é  tudo  o  que  os  mais  velhos  lá  na  floresta  descreviam,  e muito  mais”,  exclamou  o  pinheiro.  Ele  fez  um  esforço  enorme  para esticar ainda mais os seus galhos enquanto procurava ficar o mais bonito possível. As crianças  gritavam  e  corriam  ao  redor,  enquanto  outros tocavam  e  cantavam; ah,  que  alegria,  especialmente  quando  uma linda  criança,  erguida  pelo  avô, colocou uma estrela de papel no ponteiro bem no alto da árvore.

 Naquela  noite,  depois  que  as  crianças  dormiram  e  o  pinheiro cochilava, enquanto o brilho da grande estrela entrava pelas janelas, os mais velhos entraram furtivos na sala com presentes embrulhados em papel pardo liso e bonito, enfeitado com retalhos de pano que eles haviam unido com uma linha  colorida  de  bordar.

No  consolo   da  lareira, puseram  cavalinhos, porquinhos,  patinhos  e  vaquinhas  feitos  de maçãs  e  laranjas,  com  gravetos enfiados  no  lugar  das  pernas,  e olhos  e  focinhos  esculpidos  de  modo  a parecer que estavam sorrindo. E todos foram feitos por mãos cheias daquele tipo de amor que deseja surpreender e agradar as criancinhas.

Pela  manhã,  a  árvore  acordou  sobressaltada  quando  as  crianças entraram  correndo,  gritando  e  exclamando:  “Ah,  olhem  como  a árvore  está linda,  e  os  presentes  ali  embaixo.”  E  elas  abriam  os embrulhos  e  exibiam belas bonecas de trapos com densas cabeleiras castanhas de lã e vestidos de crochê,  feitos  a  mão.  Em  seguida, desembrulharam  carroças  feitas  de  restos de madeira com rodinhas que giravam de verdade.

 Elas  arrancaram  alegres  as  castanhas  do pinheiro,  e  a  árvore farfalhava  os galhos,  feliz  por  participar  de  tudo com  que  havia  sonhado,  e muito mais. Mais tarde, as  crianças  tiravam uma  soneca  no  tapete e  os  adultos também  cochilavam.  Até  mesmo os  cães  e  os  gatos  estavam  adormecidos,  a sonhar.

E  o  pinheiro  refletia  sobre  seu  destino  incrível  e  sobre  todos  os acontecimentos do dia. Estava felicíssimo.

 Naquela noite, quando todos estavam na cama  e  roncando  baixinho — o cão e o gato, assim: zzzzzz; as crianças, assim: zzzzzz; e a mãe, o pai e os  velhos,  assim:  ZZZZZZ —  a  árvore  dormia  profundamente  também  e sonhava com sua nova vida.

No  dia  seguinte  e  no  outro,  a  árvore  continuou  orgulhosa  na  sala, embora estivesse um  pouco desarrumada por ter todas as fitas arrancadas  e porque sua estrela estava meio caída sobre um dos seus olhos.

Apesar disso, tudo  estava  uma  glória  mesmo  quando  o  pinheiro  viu que  a  maioria  das crianças  e  dos  adultos  subia  nos  trenós  e  ia embora.  “Ora, estarão  de  volta hoje  à  noite”,  pensou  o  pinheiro,  “e então  vão  mais  uma  vez  pôr  meu tronco machucado  numa  água fresca  e  nova.  Vão  me  decorar  de  novo,  e  a festa vai recomeçar.”

O pai entrou então, com passos pesados, e tirou todos os enfeites do pinheiro,  guardando-os  em  caixas  com  camadas  de  enchimento  de algodão. Depois, tirou a árvore da água e a sacudiu com tanta força que qualquer outra coisa  que  pudesse  estar  escondida  nos  galhos  cairia ao  chão.  Ele  deixou  as guirlandas de frutinhas secas na árvore e a arrastou da sala. O  pinheiro,  apesar  de  surpreso  com  esse  tratamento grosseiro, ainda estava esperançoso. “Ah, eu me pergunto para que sala iremos agora.” Ele  imaginou  todo  o  processo  jubiloso  da  decoração, dos  presentes,  das crianças dançando e de todos cantando, e suspirou ao pensar nisso tudo. O  pai,  no  entanto,  arrastou  de  maneira  descuidada o  pinheiro  pela escada  de  madeira  acima,  que  não  parava  de  subir e  cujos  degraus  iam  se estreitando cada vez mais quanto mais eles subiam. E afinal, no patamar mais alto, o pai abriu uma pequena porta e, sem cerimônia, jogou a árvore lá dentro.

A árvore exclamou alarmada no que lhe pareceu um grande grito: “Que tipo de escuridão  é  esta?”  Mas  a  verdade  é  que  ninguém  pareceu  ouvir, pois  o  pai fechou a porta e desceu de volta pela escada.

 … pois, você sabe, nesse quartinho frio no sótão, não havia luz a não ser por uma janelinha embaçada na lateral do telhado, através da qual brilhava aquela estrela enorme.

“Ai, pobre  de mim”,  pensou  o  pinheiro,  tateando  todos  os  galhos para ver se havia alguma fratura. “O que eu fiz para ser abandonado num lugar tão frio e solitário?”  Mas  ninguém  ouviu.  E  ali  o  pinheiro  ficou  muitos  dias  e muitas noites.

Certa  noite,  porém,  com  o  canto  do  olho,  o  pinheiro  viu  quatro pontos vermelhos reluzentes. Eram os olhos de dois ratinhos minúsculos que ocupavam  as  paredes  do  sótão.  “Ah”,  disse-lhes,  em  voz  baixa, ”ah,  minhas senhoras, sabem me dizer quando virão me buscar, quando voltarei para a sala especial?” O camundongo de macacão e cachecol começou a rir e a gaguejar: “V-v-v-vir para levar você de volta para a sala especial? Ha, ha, ha.”

Mas o outro camundongo, de vestidinho e avental branco, cutucou o companheiro  e  falou  com  a  árvore com  gentileza:  “Querida  árvore, ora,  você teve uma vida boa, não teve?”  “Tive”, concordou a árvore, com tristeza. “Ah,  sei  que  você  sentia  ter  nascido  para  essa  vida,  tanto que  não desejava que ela mudasse. Mas…”, e nesse ponto ela afagou a árvore, “todas as coisas, árvore querida, mesmo as coisas boas, têm seu fim.”  “Esta época precisa terminar?”, indagou o pinheiro. “Sim”, respondeu  o  camundongo,  erguendo  a  mão  e  acariciando-a novamente. “Essa  época já terminou. Mas agora começa um tempo diferente. Uma nova vida, um tipo de vida diferente sempre se segue à antiga. Você vai ver.”

 E os dois  camundongos fizeram companhia para o pinheirinho a noite inteira. Contaram  histórias  e  cantaram  todas  as  músicas  que conheciam.  O  pinheiro perguntou se os camundongos não gostariam de subir nos seus galhos para se aquecer,  e  eles  disseram  que  sim,  muito obrigado,  e  subiram.  Juntos  eles dormiram durante a noite escura com a grande estrela lá fora se aproximando cada  vez  mais  da  janela,  quase como  se  soubesse  de  seus  destinos  e,  com pena, lançasse sua luz ainda mais sobre eles.

 Pela  manhã,  o  pinheiro  e  os  camundongos  foram  despertados  pelo ruído  de  passos  pesados  na  escada,  e  o  casal  de camundongos saltou dos galhos do pinheiro. “Adeus, querido amigo. Lembre-

se  de  nós como  nós  nos  lembraremos  de  você  e  da  sua  bondade.”  E  os camundongos correram para a fresta na parede. “E eu, de vocês”, exclamou a árvore. “Eu me lembrarei de vocês.”

A porta do sótão foi aberta com violência, e o pai, usando um gorro de  lã e  um  sobretudo,  agarrou  o  pinheiro  e  o  arrastou  pela  longa  escada abaixo,  pela  porta,  até  o  quintal.  Ali, deitou  o  pinheiro  num  toco velho  e ergueu muito alto um machado enorme, que caiu na árvore com o mais terrível dos pesos, provocando os ruídos mais medonhos de madeira dilacerada. Com o primeiro golpe, a árvore achou que ia morrer com a dor, e antes do segundo já estava inconsciente.

Muito tempo depois, o pinheiro acordou novamente no canto da sala especial  e,  embora  não  se  sentisse  muito  bem,  parecia  que  lhe faltavam apenas  sua  copa  verde  e  que  seus  braços  estavam arrumados  de  um  modo totalmente  diferente,  em  pedaços.  No entanto,  viu,  nas  poltronas  diante  da lareira, o velho casal que conhecera quando chegou à casa, vindo da floresta. Eram  eles  que haviam  banhado  seu  ferimento  com  água  fresca.  Ali  estavam eles, bem  juntinhos  diante  do  fogo.  Apesar  do  seu  estado,  o  pinheiro sorriu com o amor que via entre os dois.

O  velho  levantou-se  e  jogou  um  dos  braços  do  pinheiro  no  fogo. Embora  de  início  o  pinheiro  resistisse  e  protestasse,  logo compreendeu, enquanto a chama queimava cada vez mais fundo no seu coração, que aquela era  sua  alegre  missão  no  mundo  —  dar  calor para  pessoas  como  essas.  Ah, ser aquecido de dentro para fora pelo amor, e de fora para dentro pelo amor de alguém como ele.

 O  pinheiro  ardeu  então  com  uma  força  ainda  maior.  “Ah,  nunca pensei  que  pudesse  queimar  com  tanto  brilho,  que  pudesse  encher uma  sala com  tanto  calor.  Amo  esses  velhos  com  todo  o  meu coração.”  O  pinheiro  e todos  os  nós  na  sua  madeira  —  e  no  seu cerne  —  explodiam  de  alegria  nas chamas. Noite  após  noite,  o pinheiro  permitia  essa  entrega.  Era  tão completa  sua  alegria  por  ser útil  e  ter  vida  desse  modo  que  ele  queimou  e queimou  até  não restar  mais  nada  dele,  a  não  ser  as  cinzas  que  jaziam  no fundo da lareira.

Quando  estava  sendo  varrido  da  lareira  pelos  velhos,  pensou  que sua  vida  fora  gloriosa,  mais  do  que  esperara,  só  que  agora  a  nada poderia aspirar.

O  casal  de  velhos  era  muito  cuidadoso  e,  com  suas  mãos  velhas  e sábias, varreu delicadamente cada fragmento de cinzas da lareira. Puseram as cinzas  num  saco  macio  e  muito  usado  e  o  guardaram até  a  chegada  da primavera.

Quando a terra começou a se aquecer, o velho e a velha trouxeram para fora  de  casa  o  saco  de  cinzas,  entraram  pelos  jardins  e  campos  e espalharam  cuidadosamente  as  cinzas  do  pinheiro  por  todas  as videiras  e também  por  todas  as  suas  terras.  Eles  misturaram  as cinzas  do  pinheiro  ao solo.  Com  o  tempo,  quando  as  chuvas  e  o  sol da  primavera  chegaram  para ficar, as cinzas sentiram sinais de vida por baixo delas.

Aqui  e  acolá,  por  baixo,  através  e  em  volta  das  cinzas,  surgiam minúsculos brotos verdes das entranhas do solo, e o pinheiro deu milhares de sorrisos e milhares de suspiros na sua felicidade por voltar a ser útil.

“Ai, eu não sabia que podia virar um monte de cinzas e ainda assim voltar a  produzir  tanta  vida  nova.  Que  sorte  enorme  coube  à  minha  vida. Cresci no isolamento da floresta. Mais tarde, que belos dias e noites de copos a tilintar, de  luz  de  velas e cantorias eu vim a conhecer. Na minha época de solidão  e  carência,  na  mais  escura  das  noites,  tive  a amizade  de  estranhos, como  se fôssemos  uma  só  família,  ou  até mais  do  que  isso.  Mesmo  quando estava  sendo  dilacerado  pelo  fogo, descobri  que  podia  emitir  imensa  luz  e calor do meu próprio coração. Que sorte, como fui afortunado.”

“Ah”,  suspirou  o  pinheiro,  “de  tudo  que  cresce,  cai  e  cresce novamente, é só o amor pela vida nova, e apenas ele, que dura para sempre.

Agora estou em toda a parte. Está vendo como vou longe?”  Naquela noite,  quando  a  grande  estrela  cruzava  o  céu  noturno  do universo,  o pinheiro  jazia  sobre  a  terra  abençoada,  aninhando-se  junto  às raízes e  sementes  para  aquecê-las  com  suas  próprias  cinzas,  nutrindo  para sempre  todas  as  coisas  que  crescem;  e  essas,  por  sua  vez,  nutrindo outras, que por sua vez nutririam ainda outras, por todas as gerações futuras. Naquela lindíssima terra, da qual ele vinha e para a qual agora voltava, ele dormiu bem e teve sonhos profundos, cercado ali — como um dia estivera cercado antes no meio da floresta — por aquilo que é muito maior, mais majestoso e muito mais antigo do que jamais se conheceu.

Ref. Bibliografica: O jardineiro que tinha Fé – Clarissa Pínkola Estes – Ed.Rocca – 1996