Arrependimento

Arrependimento

por Revista Super Interessante 02/10/2013 Na Mídia Arrependimento - Revista Super Interessante

Na edição de maio de 2013, a Revista Superinteressante publicou a matéria “Guia prático contra arrependimentos”. Assim que li o título, me perguntei: Como é possível criar um guia? Curiosa, iniciei a leitura.

A matéria começa com a história de uma australiana que, num determinado momento de sua vida, decide mudar de rota, abandona sua carreira no mundo financeiro e sai em busca de outras realizações, chegando a se tornar enfermeira de idosos em fase terminal. Foi então que passou a observar que todos eles traziam algum tipo de arrependimento e começou a listá-los.

Será que somente no final da vida é possível reconhecer nossos arrependimentos?, me perguntei. Será que isso mostra certa resistência para vermos ou admitirmos que, sim, nos arrependemos de uma ou outra decisão que tomamos?

O fato é que, quase sempre, estamos tomados pelo desejo “quero ser feliz”, e seus desdobramentos e questionamentos, que vão desde qual profissão seguir, caso ou compro uma bicicleta, qual viagem realizar no próximo verão até onde morar quando envelhecer. Puxa! Tantas são as coisas que passam pela cabeça quando buscamos essa tal felicidade… Mais ainda quando nos damos conta de que ela pode estar atrelada, substancialmente, ao medo de nos arrependermos de alguma escolha.

Realmente, passamos todo o tempo buscando coisas, muitas vezes não somente em quantidade, mas em variedade, queremos ser e ter, e concomitantemente também paralisamos, desviamos, patinamos… Medo, incertezas? Talvez…

Penso que cada um de nós já sentiu o gosto do arrependimento, mesmo sem admitir, e esta matéria nos lembra o quanto pode ser amargo chegar ao final da vida com alguns deles. Por isso, a tentativa de criar um guia. Embora não compactue com essa ideia, acabei refletindo sobre a tal lista feita pela australiana e, antes que me arrependa, compartilho com vocês, meus leitores:

Primeiro arrependimento: “Gostaria de ter trabalhado menos”. Mas certamente há aquele que gostaria de ter trabalhado mais… Difícil dizer se é menos ou mais, não? Acredito que as questões do trabalho se movimentam, se enlaçam com as questões e etapas do viver. Há momentos em que precisamos trabalhar mais, outros, temos de desacelerar. O ponto é que desconectamos a atividade profissional da vida; vemos muitas pessoas trabalhando arduamente em um momento que já poderiam estar num ritmo mais lento, enquanto outras buscam uma aposentadoria precocemente, quando ainda teriam muita energia para gastar, teriam muito a contribuir em suas comunidades. Há, de fato, um desequilíbrio. Penso que podemos olhar a questão de modo mais dinâmico, entendendo não apenas o sentido que atribuímos ao trabalho, mas também como harmonizá-lo com as demandas de cada momento.

Segundo arrependimento: “Queria ter tido coragem de viver a vida que eu desejava, e não a que os outros esperavam de mim”. Será mesmo que o inferno são os outros? Ou tendemos a terceirizar nossas responsabilidades? O fato é que, muitas vezes, nos distanciamos de nossa alma para sair em busca de outros caminhos, mas não podemos nos esquecer de que, de certa forma, são caminhos que também desejamos e que, por algum motivo, nos chamam ou chamaram a nossa atenção. O diálogo com a gente mesmo é de extrema importância nessas horas, pois faz com que fiquemos mais presentes em nós, que assumamos as responsabilidades por nossas escolhas, acertadas ou não, tanto quanto pelos desdobramentos que virão. Pensando assim, conquistamos mais segurança para bancar nossos sonhos e desejos. A pergunta que podemos nos fazer, então, é: como anda esse diálogo interno?

Terceiro e quarto arrependimentos: “Queria ter expressado mais meus sentimentos e queria ter mantido contato com meus amigos”. De imediato penso na qualidade das nossas relações, e como a superficialidade está dominante em nossa sociedade. Trata-se de questão urgente, e vale o alerta das pesquisas citadas na matéria, segundo as quais “o fator que mais previa a saúde e a felicidade de uma pessoa na velhice eram as relações sociais que ela mantinha”. E mais: “quem tem o hábito de dizer a pessoas próximas como elas são importantes se sente 48% mais satisfeito com as relações que mantém”. Frente a isso, cabe avaliarmos se estamos aprendendo a ter mais intimidade e mais profundidade nas relações com todos aqueles que fazem parte da nossa vida. Ainda está em tempo!

E por último, mas não menos importante: “Queria ter sido mais feliz”. Queremos saber, conhecer, controlar tudo, de modo a alcançar a felicidade. Mas precisamos, também, e cada vez mais, estar atentos para a importância de construir, de forjar a vida a cada dia, sem automatismos, exercendo cada um de nossos papéis, buscando harmonizar nossos sentimentos e experiências, que sempre pedem novas releituras e reflexões.

Realmente, não precisamos de guias, mas precisamos sim estar mais presentes, no hoje e em nós. Precisamos aprender a nos desapegar do passado e relativizar nossas expectativas sobre nós mesmos e sobre o futuro. Isso é viver.

Abraços e boa leitura.