Os velhos contadores de histórias

Os velhos contadores de histórias

por Stella Maximo 27/03/2015 Crônicas Os velhos contadores de histórias - Stella Maximo
Tags: alma, ego, envelhecimento, histórias

Neste momento de minha vida, na fase dos 50 e poucos anos, em que o envelhecimento se torna mais evidente, me flagro olhando em várias direções: o que passou , o que pode vir ou mesmo o que poderia ter sido. 

Perguntas surgem: em qual direção olhamos na velhice? Seremos capazes de olhar para fora e para dentro, simultaneamente? O que podemos esperar do futuro? Como será minha velhice?

Não sei.  Inclusive, penso se essas perguntas pedem respostas ou sugerem reflexões.

Fico com a segunda opção: reflexão. E portanto, trago aqui algumas que venho fazendo para compartilhar com meus leitores.

Por vezes, minhas histórias me ocupam, aquelas da infância, da adolescência e da maturidade. Vou explorando cada uma delas como se as memórias fossem um grande campo em que posso buscar informações vitais: lembranças, sensações, aromas, sabores e, ao mesmo tempo, posso remontá-las em novas e diferentes arrumações.

Em outros momentos, fico observando os anciões e anciãs do meu convívio: pai, mãe, tios, sogra, sogro e aqueles e aquelas de encontros eventuais. Encontros… mágicos? Pode ser, uma vez que eles, também, me envolvem em memórias, lembranças, antepassados e histórias.

Aprendo e apreendo. Esses encontros se tornam verdadeiros presentes!

Por isso, trago aqui um em especial, com meu pai.

Em cada encontro com esse homem de 81 anos de idade, vejo a vida através das histórias que ele sempre tem para contar, dos elogios que tece para todos que cruzam o seu caminho e, também, de seu bom humor, evidenciado em seu sorriso, o qual contrasta com suas dificuldades físicas – a principal, o glaucoma, que limitou sua visão e o impediu que se dedicasse a seus hobbys favoritos: ler e assistir a filmes.

Intrigada, certa vez lhe perguntei: “Pai, de onde vem este bom humor, este entusiasmo, esta vitalidade?” Com tranquilidade, ele me respondeu: tenho tudo: minha família, minhas filhas, meus netos. Eu só tenho a agradecer a vida!”

Agradecimento… Será este um fio condutor para iniciar uma reflexão quando, envelhecendo, vamos nos aproximando mais e mais da velhice?

Nesse agradecimento de meu pai à vida, percebo que, junto, está também a autenticidade e o respeito pela história vivida. Com essa tríade, creio, que possamos brindar a nossa singularidade, e quem sabe nos desprendermos das máscaras e assim nos aproximarmos de nossa alma.

Ao escutar com atenção as histórias de vida desses anciões e anciãs, percebo diferentes tons, diferentes entonações. Meu pai, por exemplo conta suas histórias com entusiasmo, paixão, intensidade, vibração… Outros, arrisco dizer que muitos, transmitem suas histórias com sentimentos de perda e de restrição, acentuando as fragilidades.

Amarguras, desamores, frustrações… feridas na história pessoal que podem enegrecer e enrijecer os olhares para o envelhecimento, para a velhice e para a vida.

Será este outro fio condutor, o tom com que contamos nossas histórias?

Recontar as histórias pessoais vividas e ainda por viver, encontrar novamente os antigos personagens, como por exemplo: a criança, o adolescente, visualizar os novos: o sábio, o rabugento, o velho, só para citar alguns. Quem sabe eles possam ajudar a dar novos e diferentes sentidos e entonações, para as vivências inevitáveis do envelhecimento.

E também, aliviar a tensão gerada pela necessidade de controles e apegos, que muitas vezes nos deixam presos a uma única versão da nossa história e a um único personagem, impossibilitados de refletir…

Nesse processo de recontar as histórias, de refletir sobre nossas experiências, de repensar nossa jornada, vejo um modo de nos tornarmos amigos de nossos maiores inimigos, estes que nos visitam nas noites de insônia, que ficam à espreita de nossas fraquezas, que incitam a nossa ansiedade.

Quem sabe, possamos ser mais criativos e mais íntimos de nós mesmos, para reorganizar nossas expectativas e sonhos e aceitarmos as transformações exigidas no processo de envelhecimento.

Então, com que tom, vocês, leitores, contam as suas histórias e quais fios irão usar para recontá-las?