O aroma tecnológico, eu senti…

O aroma tecnológico, eu senti…

por Stella Maximo 09/04/2016 Crônicas O aroma tecnológico, eu senti… - Stella Maximo
Tags: crônica, deuses, familia, histórias

A tecnologia está presente na vida de todos nós, desde os pequeninhos e seus jogos, passando pelos jovens e suas conversas no WhatsApp, fotos no Instagram, até os mais velhos e suas páginas no facebook.

Os computadores e os celulares já fazem parte da casa e da vida da maioria das pessoas, tanto quanto o fogão e a televisão, deixando para trás o forno a lenha e as prosas nas calçadas.

Particularmente, confesso que meu diálogo com a tecnologia e seus agregados – computador, internet, software, apps – é complexo, para não dizer constrangedor. Sei das suas facilidades, principalmente na hora de escrever, reescrever e corrigir um texto. Sem dúvida é um avanço e um alívio quando me lembro das máquinas de datilografar, mesmo aquelas elétricas com corretivos. Mas, não raras vezes, em momentos em que estamos entregues as suas benesses, inesperadamente, ficamos na mão: o micro trava ou a conexão da internet cai, e por aí vai…

De qualquer maneira, nosso tempo parece cada vez mais otimizado a partir das mais variadas conexões e com a possibilidade de coexistência de inúmeras ações, por outro, ficamos com a sensação de que algo de uma temporalidade mais arcaica se perdeu…

Compartilho então um episódio que vivi dias atrás. Com meu notebook em mãos, um dos símbolos do mundo contemporâneo, me vi sentada ao redor da fogueira… Isto mesmo, em um instante, dois tempos se fundiram, como se o deus Cronos desse uma folga de sua rígida linearidade…

Estávamos em três mulheres de diferentes gerações e em lugares diferentes – eu e minha mãe em São Paulo, cada uma em sua casa, e minha filha na Alemanha -; porém, pudemos burlar toda essa distância para resgatar uma memória que nos une afetivamente: a rosca doce da vó Cidoca.

De um lado, a vó Cida com o telefone (tecnologia quase que ultrapassada nos tempos de hoje), do outro, minha filha, também munida com seu notebook de última geração, conectada no facetime, que trazia sua imagem e voz em tempo real. E eu no meio das duas, fazendo a mediação entre os dois tipos de tecnologia.

Foi assim que iniciamos os trabalhos…

A receita guardada na memória de minha mãe é daquelas que a exatidão das quantidades e medidas dos ingredientes passa longe, e no lugar encontramos segredos, manhas e tradição. O preparo e suas etapas se tornaram, aos meus olhos, um verdadeiro ritual: o ponto de crescimento do fermento e o toque da massa sovada lembravam aqueles contos antigos, carregados de metáforas e ensinamentos. Já na mistura dos ingredientes havia uma alquimia de sentimentos, desejos, tempos, passado e presente.

Nessa hora, senti a presença viva da deusa grega da memória, Mnemosine, fazendo com que épocas diferentes de nossas histórias pessoais e familiares permanecessem conectadas. Naquele momento, acessamos as nossas experiências e ressignificamos nossos vínculos, emergindo daí uma forte noção de pertencimento.

Pude ser tocada pelo frescor da jovialidade de minha filha e suas novas experiências nesta etapa de sua vida, fazendo uma liga com nossa ancestralidade e, sensivelmente, incluindo o velho.

De alguma maneira, penso que nós três, naquele momento tão único e mágico, pudemos ser salvas dos esquecimentos, tão presentes em nossa sociedade tecnológica, que torna tudo e todos tão perecíveis…

Mudamos de sintonia – de um ritmo acelerado em que costumamos andar e fazer as atividades, do armazenamento de informações, histórias, fotos e conhecimentos na nuvem (cloud), da praticidade de comprar e descartar qualquer coisa, mergulhamos, espontaneamente, em outro tempo, e assim pudemos abrir um arquivo vivo: narrar uma receita de modo artesanal, esperar pacientemente a massa crescer, num ambiente que marcava 5 graus centígrados, e só então assar…

Imagens, muitas imagens daquela tarde renovaram o meu imaginário. Sabores que certamente alimentarão a minha alma, de minha mãe e de minha filha, perpetuando nossas histórias.

E como desta vez a tecnologia foi “eficiente”, em tempo real, a rosca chegou até a vó Cida, quando recebeu a foto pelo whatsApp.

Deu até para sentir….