Imaginar	 e narrar para transformar

Imaginar e narrar para transformar

por Stella Maximo 14/03/2015 Crônicas Imaginar	 e narrar para transformar - Stella Maximo
Tags: autoconhecimento, história, imaginação

Dois momentos me chamaram a atenção na mesma semana. No primeiro, um jovem me diz o quanto se arrependia de sua escolha profissional, há sete anos, e por conta disso o quanto esse tempo foi duro, chato e que poderia ter sido melhor se a escolha fosse outra.

No segundo, um homem na casa dos 50 anos relembra os bons momentos de juventude, quando lavava os carros com os amigos aos finais de semana e, exaustos, sentavam na calçada para admirar o feito; era uma grande satisfação!

São lembranças que acionamos na busca de entender sentimentos, acontecimentos ou mesmo resultados, sucesso ou fracasso, perdas ou ganhos, medos, euforias… não sei bem ao certo. Sei, contudo, que são histórias, nossas histórias, e contamos cada uma delas de um jeito particular.

Nossas histórias são as matrizes sobre as quais nossas vidas são construídas e vão se realizando ao longo do tempo; enredam nossas experiências, sentimentos, desejos, frustrações. Por isso, proponho aqui uma atitude mais cuidadosa diante delas, a partir de algumas perguntas.

Como as contamos? Quais são as tramas que fazem parte de cada uma delas? Qual gênero predomina: cômico, trágico, dramático, romântico? Como descrevemos o protagonista? Quem são os coadjuvantes, os personagens secundários?

Enfim, será que olhamos nossas histórias como histórias?

A partir dessas perguntas, certamente poderemos acessá-­‐las de uma maneira diferente do habitual, e perceber, inclusive, o quanto podemos estar encapsulados por uma determinada trama, ou o quanto um episódio permeia todo o restante da história… Também é comum utilizarmos partes delas para justificarmos padrões socialmente esperados, caindo na superficialidade, no reducionismo, enrijecendo as próprias histórias.

Ao imaginarmos os acontecimentos ao longo da nossa vida como história, poderemos ter aí um jeito mais refinado, mais dinâmico, mais detalhado de ver, entender e refletir sobre nós mesmos. Além de desanuviar as lentes que usamos para ver a vida.

Ou seja: a forma como contamos nossa história nos diz também como compreendemos a nossa vida. Complemento essa ideia com uma citação de James Hillman, psicólogo: “o modo como imaginamos nossa vida é o modo como continuamos a vivê-­‐la”.

Então, quando tomamos consciência, ganhamos a possibilidade de fruir nossas histórias em várias “tomadas” e, assim, recontá-­‐las de novas e diferentes perspectivas e maneiras.

Vocês já se surpreenderam com esta sensação: “nossa, de novo eu contado a mesma história…”? Ou: “como estou cansada dessa minha história…”, ou ainda: “por que uso sempre o mesmo adjetivo para qualificá-­‐la?”. Talvez essa necessidade de repetição seja um alerta de que devemos nos ater às nossas histórias…

E por falar em repetições, lembro-­‐me de outra história, a do final de ano, momento em que normalmente avaliamos o que aconteceu e nos propomos, muitas vezes, a fazer um balanço do que conseguimos ou não realizar, dos resultados atingidos ou não, buscamos definir novas metas, fazemos promessa, estabelecemos inúmeros compromissos. Quantas vezes já não repetimos essa história, não é mesmo?

História antiga, ultrapassada, tradicional, ritualística… não sei… Mas que tal aproveitarmos este momento, de passagem de ano, e buscar outra maneira para contar nossa história? Podemos começar a responder as perguntas que formulei nesta crônica, e com isso nos aproximarmos de novas formas e perspectivas para recontarmos nossa história e as histórias que queremos imaginar para 2015.

E que venha 2015 com novas e boas histórias!