Cansaço - O que ele tem a nos dizer?

Cansaço

O que ele tem a nos dizer?

por Stella Maximo 12/02/2015 Crônicas Cansaço - O que ele tem a nos dizer? - Stella Maximo

Como mulher, mãe, esposa, profissional, filha, vivo, como vocês, leitoras, os inúmeros papéis que nos cabem, os quais vamos desempenhando ao longo da vida, além daquelas famosas metas previamente instaladas e registradas em nossa agenda: ser bem sucedida, ser gentil, ser inteligente, ser magra, ser, ser, ser. Ufa! Que cansaço!!

A frequência com que ele aparece para nós mulheres, ouso dizer, é espantosamente alta Além de cíclico, repetitivo, carrega, como agregado inseparável, as justificativas, que, por sinal, são bem conhecidas: trabalhei demais, errei naquilo, meu marido não fez aquilo outro, sobra para mim, e tantas outras…

O curioso é que o cansaço sempre vem seguido por uma explicação, de um porquê, quase delatando uma culpa, um incômodo, como se o fato de senti-lo fosse algo errado, menor.

Tudo que se repete e que nos desequilibra exige uma atenção mais cuidadosa e mostra que há algo urgente pedindo para ser visto e compreendido. Trata-se de um automatismo que precisa ser revisado, pois revela o quanto alimentamos um único ponto de vista, uma única verdade.

É preciso parar e revisar!

Talvez seja válido lembrar, de início, como a história das mulheres mudou ao longo dos últimos anos. Passamos em poucas décadas, de uma condição na qual nem tínhamos o direito de votar para outra em que encontramos mulheres presidentas de países, empresas e universidades. Conseguimos, sem nenhuma sombra de dúvida, avançar e vencer muitas barreiras, principalmente na sociedade ocidental.

E com isso, conseguimos resgatar inúmeras habilidades, potencias, características que não tinham espaço para serem reconhecidas, aceitas e valorizadas, tanto socialmente como para cada uma das mulheres.

Mas, com isso, outras tantas habilidades tantos potenciais foram ficando submersos, excluídos, rejeitados.

Hoje vivemos numa sociedade ainda marcada fortemente por uma cultura patriarcal, que se afirma nos valores oriundo do pensamento, da racionalidade, do imediatismo e nos coloca na luta e na obrigatoriedade de sermos realizadores de multitarefas, executores perfeitos, sem a possibilidade de falhar.

Como falei no início, nossa atitude está impregnada de ser, ser isso, ser aquilo. É a regra do intelectualismo, do poder das ideias e verdades absolutas, que nos enrijecem com a falta de tempo, com a correria, sobrecarga, stress e, por fim, a inércia.

Será que conseguimos reconhecer o que se tornou opaco, descontextualizado, démodé, o que nos escapou? Conseguimos parar e ter uma conversa franca com o cansaço? Será que reconhecemos que ele também faz parte dos nossos ciclos naturais? Acionamos nossa intuição, sensibilidade e criatividade para vê-lo como uma forma de expressão e dar conta dele no cotidiano?

Como qualquer outro aspecto, condição, sentimento, o cansaço também faz parte do nosso ritmo interior. É também uma melodia a ser escutada. Quando damos ouvido a ele, estamos afinando nosso instrumento, que está conectado com a nossa individualidade e não mais a serviço do que achamos que temos de ser.

Vamos nos aproximando de um estado de comunhão com nós mesmas, garantindo uma coesão legítima. Reconhecendo e redefinindo nossos limites em cada momento de modo fluido, dinâmico, abandonando o modo estático, rígido de estar na vida.