Açúcar no caminho

Açúcar no caminho

por Stella Maximo 09/02/2015 Crônicas Açúcar no caminho - Stella Maximo

Dentre os vários ensinamentos budistas, quero hoje refletir sobre um deles, o qual considero muito especial: a impermanência.

Estamos, a todo momento, envolvidos em planejar, roteirizar, programar, ensaiar, seja frente às tarefas diárias da casa, como o almoço do dia seguinte, à agenda de trabalho da semana, às férias tão desejadas e até ao grande sonho das nossas vidas. Tudo tem de sair como a gente quer, tudo tem de estar no nosso alcance e sob o nosso controle.

Essa dinâmica nos faz maximizar os apegos por tudo aquilo que nos cerca, desde os bens materiais até as ideias. E apego é exatamente a antítese do que significa impermanência. Na tradição Budista o conceito de impermanência é um dos ensinamentos que nos lembra que tudo está em constante transformação e que nada perdura, sendo o apego uma das causas do sofrimento.

Interessante que, no geral, as pessoas tendem a se auto-enunciar como desapegadas, revelando certa resistência em reconhecer que o apego é um dos padrões de comportamento presente em nossa cultura ocidental, com isso, dificultando a percepção de como somos atingidos.

Contudo, para nosso alívio, também nos pertence a atitude que nos move a buscar aprendizados frente a eventos inesperados, como uma demissão, uma doença, a morte. Normalmente, a partir desses fatos que mobilizam muito da nossa energia física e psíquica, procuramos algumas conexões, explicações e, com isso, pensamos, refletimos, concluímos e aprendemos sobre a vida e sobre nós mesmos.

Bom, muito bom, mas….

Por outro lado….., pergunto: será que fazemos essas reflexões também diante de eventos ou fatos triviais que atravessam o nosso dia, como a comida que deixamos queimar no fogão, a irritação frente a voz da operadora de telemarketing, quando toca o celular bem no momento que estamos concentrados em algo importante, e tantos outros que vocês possam lembrar?

Trago, então um exemplo pessoal. Ocorreu dias atrás e me motivou a escrever esta crônica.

Era uma quarta-feira de janeiro, um dia lindo e ensolarado, minhas férias estavam no fim e, passada a correria das festas, queria um dia realmente especial. Resolvemos, meu marido e eu, ir à praia fazer um bate-volta: almoçaríamos em um dos nossos restaurantes preferidos, tomaríamos um banho de mar, passaríamos naquela lojinha de decoração que tanto gosto para comprar alguns cacarecos para casa nova e voltaríamos à noitinha. Enfim…, tudo nos conformes e muito bem planejado: na mochila, apenas biquíni, chinelos, toalhas, além de muita disposição!

E… 30 toneladas de açúcar derramadas na Rodovia dos Tamoios.

O que era uma estrada super tranquila por ser um dia de semana, com pouco movimento de carros, tanto descendo como subindo, se metamorfoseou… Os 35 graus, com sensação de 45, fizeram com que muitas pessoas saíssem do carro procurando uma sombra ou mesmo sinal no celular em busca de informações, andavam de lá para cá, de cá para lá, sem sucesso.

Nos primeiros minutos, ficamos tranquilos, acreditando que era coisa rápida e que logo seguiríamos viagem. Imagina, nada estragaria o nosso dia…. Eis que, na pista contrária, passam dois guinchos enormes, e meu marido diz:

– Hummm, deve ter sido acidente com caminhão…
– Ah, meu Deus! – exclamei preocupada. – Tomara que não tenha vítimas graves… Será que vai demorar?
– Muito provável…

Mas, sem querer nos desapegar do plano, continuamos na estrada por mais um tempo, como todos ali, inclusive os que iam chegando e parando, um atrás do outro, formando uma fila que não conseguíamos ver, mas sim imaginar o seu tamanho, e o da confusão.

Passada uma hora, começamos a ponderar: voltamos? esperamos? Puxa, se tivéssemos saído mais cedo, teríamos passado antes! Que chato, queria tanto ir à paria…

Como podemos nos desapegar dos nossos roteiros, das nossas ideias? Afinal, são tão legais, podemos tê-los, executá-los… O fato é: não queremos mudar os planos.

Porém, algo literalmente atravessou nosso caminho, como certamente já aconteceu inúmeras vezes com vocês, caros leitores.

E aqui está o ensinamento budista: vivenciar a impermanência é saber, primeiramente, aceitar o novo, aquilo que nos atravessa, aquilo que nos surpreende, mas aceitar mesmo; e segundo, refletir sobre.

Foi o que fiz. Comecei a pensar em voz alta, tendo como interlocutor meu marido, e também em voz baixa, com os outros interlocutores dentro de mim. Com essas conversas para fora e para dentro, já no caminho de volta, após duas horas parados na pista, pude perceber algumas coisas.

Quando nos deparamos com algo atravessando nossas vidas e temos a abertura de olhar para isso, experimentamos o que de fato é ter inúmeros caminhos, e ainda com o pleno sentimento de que nada sabemos, nada controlamos, todas as possibilidades se tornam válidas e reais. Não temos certeza de nada, nem dos desdobramentos de nossas escolhas, apenas imaginações…

Creio que, nesses momentos, sentimos o nosso tamanho diante da vida. Eu senti. Aceitar que o roteiro mudou, seja permanecendo na estrada até a liberação, seja fazendo meia volta e retornando – não importa, ele simplesmente mudou, qualquer uma das escolhas já contemplava as mudanças, e o sentido de impermanência.

O interessante é que, mesmo tendo consciência disso que acabo de escrever, em minhas conversas para dentro, me vi frustrada, irritada, o sol que estava prometendo um dia lindo de praia, agora, me sufocava no caminho de volta, e o meu cansaço dos dias corridos das festas ressurgiu com gosto de ressaca.

Quanto apego, não é?

E foi assim que experimentei as várias possibilidades, inclusive, de mim mesma! Também pude saborear alguns dos meus sentimentos, dos meus entendimentos, e adoçá-los um pouco, quando, acessando a internet, soube aliviada que o motorista do caminhão tombado na rodovia sofreu apenas ferimentos leves…