Resenha – O exótico hotel Marigold - Uma reflexão sobre os significados das viagens e como podem transformar as nossas vidas.

Resenha – O exótico hotel Marigold

Uma reflexão sobre os significados das viagens e como podem transformar as nossas vidas.

por Stella Maximo 26/10/2015 Cine Encontro Resenha – O exótico hotel Marigold - Uma reflexão sobre os significados das viagens e como podem transformar as nossas vidas. - Stella Maximo
Tags: autoconhecimento, envelhecimento, resenha, viagem

“O exótico hotel Marigold”, baseado no livro de Deborah Maggod – These Foolish Things e lançado em 2012, tem direção do britânico John Madden, o mesmo do longa de sucesso “Shakespeare Apaixonado”.

Contando com um elenco de primeira linha, o filme traz sete personagens que estão passando por grandes mudanças em suas vidas, relativas ao fato de estarem envelhecendo: aposentadoria, viuvez, solidão, escassez de recursos, doenças… Seus destinos se unem a partir do momento em que fazem uma mesma escolha – viajar à Índia e hospedar-se no hotel Marigold, cujo proprietário é um jovem indiano.

Quem conta a história é a viúva Evelyn, que descobre, surpresa, o quanto dependia do marido e, por isso, lança-se num desafio pessoal. O juiz Graham, ao se dar conta de que chegou o momento de se aposentar, busca resgatar o seu passado. Já o casal Douglas e Jeane vive de formas diferentes a falta de recursos financeiros – ele procura se adaptar e aproveitar da melhor maneira o que tem no momento, enquanto a esposa paralisa no rancor e na não aceitação da nova situação de precariedade. Norman se ressente da perda da juventude e quer viver uma nova paixão. Madge busca uma conquista que garanta sua estabilidade financeira. Por fim, Muriel, imobilizada por conta de uma recente cirurgia no quadril, permanece também cristalizada nos padrões ingleses, mantendo-se na posição distanciada de observadora.

Há também o herdeiro do hotel, que faz de tudo para reerguê-lo – na espontaneidade de suas atitudes, Sonny busca alcançar seus sonhos.

Com uma história simples, simpática e bem-humorada, temos a oportunidade de pensar em algumas questões que, num primeiro momento, podem passar por triviais, mas, ao ganharem um pouco de luz, ajudam-nos a encarar nossos sonhos, desejos, expectativas e, acima de tudo, nós mesmos.

Os personagens embarcam numa viagem, num primeiro momento, atraídos por um anúncio – mas nele está implícita também a promessa de viver uma experiência inusitada, que preencha lacunas e suspenda conflitos e medos. Na Índia, experimentam então viver situações bem diferentes de seu país de origem, permitindo-se romper padrões ocidentais e aceitando o chamado para aventurar-se em outras terras. Cruzam fronteiras, tanto as externas como as internas, e confidenciam segredos, sentimentos e desejos aos novos parceiros de viagem.

Quantas viagens não fazemos com esse sentido, escolhendo destinos sem reconhecer, de imediato, que são esses destinos que nos escolhem? Parece que  obedecemos a uma ordem interior, uma voz do estrangeiro, existente dentro de nós.

Uma viagem e seus destinos sempre contêm um motivo desencadeante, que é acompanhado de expectativas baseadas no imaginário, no repertório individual e único que trazemos a respeito de determinados lugares. Como diz o pensador francês Michel Onfray, em seu livro “Teoria da Viagem” (ano): “… cada um dispõe de uma mitologia antiga fabricada com leituras de infância, filmes, fotos, imagens escolares memorizadas a partir de um mapa-múndi…”.

Interessante pensar como uma viagem pode movimentar a nossa vida e a nossa psique. A imaginação ganha asas e, com isso, o estático ganha movimento, coisas guardadas são mexidas, tiradas do lugar e colocadas em outro. Mudamos a perspectiva, o fuso horário, a língua, os costumes.

Neste exercício de mobilidade física, as referências são mudadas, o essencial é tocado, e a face-viajante é vivenciada. De fato, os personagens do filme passam a olhar o outro e a si mesmos de modo diferente. Há vivacidade e criatividade no diálogo com o novo, com o desconhecido e com as intercorrências próprias do deslocamento de um lugar a outro.

Mas o filme revela também as possíveis armadilhas das altas expectativas que podem nos prender numa atitude reducionista e amargurada. Cada personagem nos mostra como lidar com conflitos, com o medo, com a frustração e também com sentimentos e experiências inéditas. Por caminhos diferentes, vão pouco a pouco alcançando atitudes mais espontâneas e libertadoras. Como bem destaca a narradora Evelyn: “não podemos reviver nenhum passado que queiramos, só há um presente que se forma e se recria conforme o passado vai desaparecendo. ”

Não deixem de assistir!