Resenha – Lunchbox - Uma reflexão sobre o processo de transformação e a busca pela realização e autenticidade na vida

Resenha – Lunchbox

Uma reflexão sobre o processo de transformação e a busca pela realização e autenticidade na vida

por Stella Maximo 13/08/2015 Cine Encontro Resenha – Lunchbox - Uma reflexão sobre o processo de transformação e a busca pela realização e autenticidade na vida - Stella Maximo
Tags: alquimia, aposentadoria, envelhecimento

Dirigido por Ritesh Batra, Lunchbox foi vencedor do Prêmio Grand Rail d’Or na semana dos Críticos em Cannes de 2013. O filme nos leva a conhecer uma rotina presente no cotidiano dos grandes centros indianos, como Mumbai, que é a entrega de marmitas feitas pelas esposas para seus maridos no trabalho, por profissionais chamados de Dabbawallahs.

E é com esse pano de fundo que o autor nos presenteia com uma história sensível, simples e profunda, abordando dois temas muito pertinentes para os dias de hoje. Um deles, os desdobramentos do processo de aposentadoria na carreira de um homem, e o outro, os sentimentos de uma mulher em busca de seus desejos pouco atendimentos num casamento pautado pela indiferença e distanciamento de seu marido.

Em seu ritmo mais lento, o filme coloca em relevo a intensidade das emoções e sentimentos de seus personagens, abafados num primeiro momento pela rotina diária de cada um deles. E em cada preparo e entrega das marmitas, mostra como os personagens vão se transformando e ganhando, pouco a pouco, autenticidade. Inclusive o espectador é capturado, desde o início, pela riqueza de detalhes e símbolos contidos nas lindas cenas tão diferentes e distantes do olhar da cultura ocidental.

A história começa com Ila (Nimrat Kaur), uma jovem mulher infeliz em seu casamento, que busca atrair novamente seu marido; para tanto, segue os ensinamentos de sua tia na utilização de alguns temperos no preparo da comida que será colocada em uma marmita e entregue ao seu marido, em seu trabalho, pelo serviço Mumbai Dabbawallahs. Intuitivamente, e aconselhada pela velha sábia, Ila se vale de umas das ciências mais antigas, a alquimia.

A alquimia é a arte do fogo e da transformação. Os antigos alquimistas, em seus laboratórios, trabalhavam as misturas de materiais menos nobres, de modo que se transformassem em um material mais nobre, o ouro.

Com isso, podemos pensar que a cozinha e o fogão de Ila são o laboratório, e os alimentos crus, os materiais a serem transformados. Temos assim uma alquimia na culinária. O preparo das refeições torna-se um ritual: como vemos no filme, Ila prepara a refeição com um toque especial e intencional quando adiciona os temperos, indo muito além do próprio alimento.

O psicólogo James Hillman nos lembra em seus estudos de que os alquimistas projetam suas profundezas no material que manipulam em seu laboratório; assim, material e alma estão sendo mutuamente trabalhados. De fato, a psicologia usa a alquimia como uma metáfora que colabora nos entendimentos dos processos psíquicos. Deste modo, podemos entender que Ila está transformando mutuamente alimentos, temperos e seus sentimentos, na busca de sua essência. Arrisco a nomear alguns deles: amor, medo, tristeza, desprezo, desamparo…

Outro ponto interessante nesta história é o extravio da marmita, que, por um erro do serviço de entregas, não chega ao marido de Ila, mas sim a um homem, desconhecido. Mais velho, viúvo e desiludido, Saajan passa por um momento sem perspectivas, somado ao fato de que está vivendo sua entrada na aposentadoria e, portanto, passando seu cargo a um homem mais jovem.

Fechado em si mesmo, Saajan, personagem interpretado por Irrfan Khan, de “Aventuras de Pi”, revela muitas dificuldades para enfrentar as transições presentes tanto no processo de aposentadoria como no do envelhecimento. Está identificado com as perdas, como se elas fossem a sua única maneira de viver esse momento, sofrendo, como muitas outras pessoas, frente aos desafios que a aposentadoria impõe e com as perdas pertinentes ao envelhecer.

De maneira pitoresca, o filme também mostra como o destino está fora do controle das pessoas e como os caminhos da vida são feitos de desvios. Comandada pelo deus Hermes, a marmita de Ila se desvia e chega em outro lugar. Saajan, que espera seu almoço de todos os dias, surpreende-se com um alimento diferente do usual, e é neste momento que se dá um novo encontro e, com isso, um novo caminho de transformações começa a surgir.

A partir da expectativa de Ila e da surpresa de Saajan, surge a curiosidade em ambos, que movimenta este encontro, tão peculiar. As marmitas ganham bilhetes – Ila, a princípio, quer saber quem recebe sua comida; já Saajan diz o que ela queria escutar: o quanto a comida dessa jovem mulher o encantava.

Assim, a cada marmita e a cada bilhete, Ila e Saajan trocam confidências, sentimentos. A confiança começa a aparecer e ambos passam a ter um olhar diferente para seus sofrimentos, frustrações e, consequentemente, para a vida.

Acredito que este encontro também é uma alquimia; nele, estão colocados outros ingredientes: esperança, surpresa, o diferente, curiosidade, humor, troca, intimidades, segredos, desejos, confiança.

Penso que esses são ingredientes necessários, os quais qualquer um de nós podemos escolher para misturar, colocar no fogo, cozer, cuidar e nutrir-se para enfrentar os desafios das perdas inevitáveis, seja na juventude, no envelhecimento ou na velhice. E assim ganharmos a coragem necessária para criar e aceitar os novos desvios do caminho.

No filme, com coragem, Ila marca um encontro para conhecer Saajan. Pontualmente, chega ao lugar combinado. Saajan, já renovado e motivado, também vai ao encontro, mas, quando a vê, percebe que Ila é muito jovem para ele, e não se apresenta, mantendo-se à distância, apenas observando-a. Contudo, a transformação já estava em curso na vida dos dois, tanto que Ila sai de casa com a filha para, finalmente, realizar seu desejo, e Saajan passa a se relacionar de modo mais afetivo com as pessoas o que o cercam.

A vida para os dois ganha um novo tempero…