Resenha – Acima das nuvens - Uma reflexão sobre as questões que envolvem o envelhecimento

Resenha – Acima das nuvens

Uma reflexão sobre as questões que envolvem o envelhecimento

por Stella Maximo 19/06/2015 Cine Encontro Resenha – Acima das nuvens - Uma reflexão sobre as questões que envolvem o envelhecimento - Stella Maximo
Tags: envelhecimento, feminino, idade

“Acima das nuvens” é um filme do diretor Olivier Assayas, ambientado nos Alpes Suíços – Sils Maria e traz como temas: o conflito entre gerações, a passagem do tempo e  morte.

Juliette Binoche é Maria Enders, mulher madura, na faixa dos 40 anos, que está em um momento de vida conflituoso, oriundo dos desdobramentos de seu divórcio. Ao longo do filme, são desenhados situações e contextos que afloram em Maria, principalmente, o conflito com sua idade e, por consequência, com seu processo de envelhecimento. Surgem então dificuldades frente ao embate de valores e hábitos marcados nas diferenças entre as gerações e o confronto entre sua imagem pública versus suas demandas internas.

Logo no início, a morte de seu grande amigo e autor da peça “Maloja Snake” desencadeia esses conflitos. Isso porque foi justamente ele quem lhe deu a grande oportunidade de sua carreira, a de interpretar a jovem protagonista da peça, de nome Sigrid. Ocorre que, como homenagem a esse autor, se vê obrigada a aceitar um convite profissional: reencenar a mesma peça que lhe eternizou no papel de Sigrid; porém, nesta nova versão, no papel da antagonista Helena, uma mulher mais velha, insegura e facilmente manipulada.

Essas questões são muitos bem desenhadas nos diálogos de Maria (Juliette Binoche) com sua jovem assistente Valentine (Kristen Stewart) e também com a atriz iniciante de Hollywood, JoAnn (Chloe Moretz), que foi escalda para o papel de Sigrid, na remontagem da peça.

Nesses diálogos, vamos então percebendo a intensidade de seus sentimentos, que parecem cristalizados, o que torna sua lente mais míope, dificultando a compreensão de si mesma e das novas demandas impostas, tanto pela vida como por suas escolhas.

Movida por essa dinâmica, Maria vê a realidade de modo distorcido, o que a deixa encurralada e enrijecida em suas opiniões ácidas e atitudes reativas, sem acesso aos recursos emocionais que poderiam ajudá-la a entender e aceitar tais situações como desafios pertinentes para o momento de sua vida.

Vemos então que Maria trazia dentro de si, ainda muito viva, a jovem personagem, que, no início de sua carreira, lhe proporcionara tanto sucesso. Trata-se, de certa forma, de um apego ao passado, o que, somado às dificuldades em aceitar o envelhecimento, faz com que a atriz confunda a arte (trabalho/ personagem) com a própria vida, inviabilizando as discriminações necessárias que poderiam contribuir para uma reflexão e melhor entendimento das dificuldades do presente.

Como sabemos, o envelhecimento faz parte da vida, queiramos ou não. Portanto, devemos procurar meios satisfatórios de construir diálogos, principalmente, com alguns dos fantasmas de nossa história, tanto quanto com alguns de nossos personagens.

Podemos ver que a dificuldade de vivermos a idade presente, facilmente, nos leva a cair em armadilhas, que nos impõem uma restrição, um sentimento inflacionado, uma paralisia, um rebaixamento da autoestima, a ponto de gerar um forte sentimento de incapacidade. Tudo isso fica claro no filme, nas reações de Maria frente às suas inseguranças e ao que é novo em sua vida.

Vale a reflexão.!