O Filho da Noiva - Argentina 2001

O Filho da Noiva

Argentina 2001

por Stella Maximo 22/10/2012 Cine Encontro O Filho da Noiva - Argentina 2001 - Stella Maximo

O Filho da Noiva fala de dramas familiares, com personagens nas diversas etapas da vida.

A história gira em torno de Rafael, um homem de 42 anos de idade, divorciado, pai de uma garota, estressadíssimo, completamente envolvido pelo trabalho. Ele é dono de um restaurante que herdou dos pais, após ter abandonado a advocacia (sonho de sua mãe).

Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Vencedor no Festival de Gramada na categoria Público e Crítica 2012.
IV Simpósio do IJUSP Jung e o Cinema

A crise econômica pela qual passa a Argentina força–o a economizar e, às vezes, comprar ingredientes mais baratos para elaborar o seu cardápio. Mantém um relacionamento tenso com os fornecedores, negociando prazos para pagamento e entregas. Além disso, um grupo multinacional lhe faz uma proposta de compra, que, a princípio, Rafael rejeita.

Este agitado cotidiano de trabalho é complementado pelos conflitos com a ex-esposa, a relação distante com sua filha e a desatenção com a noiva.

Os personagens mais centrais são seu pai, aposentado, e sua mãe, que sofre com o Mal de Alzheimer.

A narrativa do filme se desenrola em vários núcleos. Vou destacar a relação de Rafael com seus pais, a transformação pela qual passa nesses encontros e no seu momento de vida, o qual se aproxima de uma etapa que vou denominar pré-envelhecimento, enquanto seus pais já vivem a fase do envelhecimento.

Com a evolução da doença de sua mãe, seu pai a interna numa casa de repouso, mas Rafael evita visitá-la, deixando de fazê-lo durante um ano.

A mãe é uma figura importante em sua vida, como retratado nas cenas de flashback, com as recordações de sua infância e as fotos de família, mostrando as saudades de um tempo bom, em contraponto com o nível de transtornos e aborrecimentos que vive em sua fase adulta. É a criança e sua inocência perdida.

Rafael parece ser um adulto preso em sua criança. Seu relacionamento com a vida se dá de modo bravo, irritado, saudoso de algo que já passou , talvez da proteção de sua mãe, com a qual agora já não pode mais contar, tanto por ser um adulto, como pela impossibilidade trazida pela doença.

Num primeiro momento, a doença é vista por Rafael como uma injustiça. Ele carrega uma culpa nesta relação mãe-filho, pois sente que não cumpriu as expectativas depositadas sobre si, que estragou a vida dela e ainda, por cima não teve tempo para mostrar que conseguiu reerguer o restaurante da família e, assim, dar um rumo à sua vida.

O conflito é revelado logo no princípio no filme, com atitudes defensivas, como não visitar a mãe, sem que Rafael se dê conta do tempo que passou sem vê-la.

De fato, muitas vezes, nos apoiamos em um dos pilares da nossa vida, mais comumente o do trabalho, com suas demandas e responsabilidades. Contudo, trata-se de uma forma de defesa para o não enfrentamento dos nós localizados nos demais pilares.

Construímos personas poderosíssimas, fazendo-nos acreditar que estamos indo bem, uma vez que estamos de acordo com o coletivo, pagamos as contas, temos um cartão de visita, de crédito, e muitas outras coisas para nos “distrair”….

Por outro lado, temos o pai de Rafael, um homem que transpira amorosidade e paciência, tanto no olhar como nas palavras e ações. É uma pessoa presente e persistente, como vemos no momento em que convida o filho a visitar a mãe. A princípio, Rafael diz não, mas o pai pacientemente lembra que é o dia do aniversário dela.

Cedendo ao pedido do pai, Rafael vai ao encontro da mãe, emociona-se e nos mostra o quanto é difícil lidar com a senilidade. Vê nas falas dela não as consequências do Mal de Alzheimer, mas resíduos das mágoas do passado. O pai, presente, dá novos referenciais, atualizando-o e lembrando-o sobre a doença.

Em seguida, Rafael é surpreendido pelo pedido de ajuda que seu pai lhe faz: quer dar à esposa a única coisa que ainda não lhe deu, o casamento na igreja. Porém, na lógica do filho, o pai deveria aproveitar a vida com os amigos e fazer a viagem de seus sonhos. Considera então a ideia do casamento absurda, inconcebível, e não a aceita. Mas seu pai se mantém decidido, trazendo-lhe outro universo: um novo começo para ele é continuar a ser feliz ao lado de sua mãe.

Essas são as dificuldades de dialogar com o velho e o novo, dentro nós! E quando, consciente ou inconscientemente, resistimos as transformações necessárias, a vida nos força, e de tal maneira que acaba por nos pegar de surpresa.

No caso de Rafael, além da notícia do casamento, também foi surpreendido com um infarto. Quinze dias na UTI, e ele começa a repensar a sua vida…

No hospital, em um desabafo com a noiva, revela que tinha muitos sonhos quando jovem, mas agora tem apenas um, ir para o México, e diz: “eu e minha alma”. Parece profundo, mas, na verdade, é defensivo – ele ignora a noiva, que, com os olhos cheios de lágrimas, se sente excluída. Mas ele não percebe, não consegue enxergar o outro, está ainda muito egocentrado.

Como é muito natural, após uma grande chacoalhada, a reflexão ainda é superficial, e a atitude é reativa, levando para o outro polo, que é dar vida ao sonho e largar tudo.

Essa gangorra inicial, também é natural, mas não deixa de ser uma oportunidade de transformação ou mesmo o início de um processo. E Rafael faz esse caminho em diversos encontros. Destaco o encontro com seus pais velhos, e duas facetas do processo de envelhecimento.

Processo de envelhecimento duas facetas

Processos de Envelhecimento Duas Facetas
Pai
– Velho Sábio
– Senescência
– Paciência
– Compreensão
– Autoconhecimento
Mãe
– Senilidade
– Retirando-se da Vida
– Sofrimento
– Litações

Amoredor

Uma representada pela figura do pai, um homem que nos traz o velho Sábio, mostrando a naturalidade do envelhecimento, a senescência. A paciência, a compreensão, a maneira como vive e entende seus sentimentos e se auto-acolhe.

A outra é representada pela figura da mãe , uma mulher que envelhece e vai se retirando da vida por conta da senilidade, pela doença típica deste período.

Neste encontro com essas duas facetas, tendo como base o amor e a dor, torna-se possível para Rafael se abrir para si mesmo e para o outro, bem como sentir e reconhecer o próprio sofrimento, ganhando segurança e clareza para ser quem é. Isto é transformador.

Rafael está se aproximando de uma etapa que podemos chamar de pré-envelhecimento. Aqui, o arquétipo do Senex está mais ativado, propiciando, assim, mudanças de atitude, impactando na forma como lidamos com nossas responsabilidades e obrigações.

Na fase pós-adolescência e adulta, estamos vivendo nosso herói – o trabalho, a carreira, o sucesso, os aspectos materiais, muitas vezes, ganham ou tomam um espaço muito grande de nosso tempo cronológico e psíquico. Esta é a prioridade, e a sensação é de não termos tempo para mais nada, na verdade não temos interesse (libido) em mais nada.

Todo o resto entra somente nas brechas, nos intervalos, tudo no “modo rapidinho”. Não temos tempo para a saúde, para escutar os filhos e os velhos, os sonhos e nem os desejos. Creio que a maioria de nós já viveu um período assim, seja curto ou extenso, mas já passou por isso.

O infarto que Rafael sofre é a crise abrindo oportunidades!

Crises são situações que nos tiram do padrão; pode ser uma doença, um acidente, uma demissão, um prejuízo, uma morte, qualquer que seja a situação que nos faça parar bruscamente o que se vínhamos fazendo de modo automatizado.

No filme, Rafael, após o infarto, começa a ter uma maior disponibilidade interna para dialogar com o velho presente (pai e mãe) e o que se formará nele próprio.

Pré Envelhecimento – Arquétipo do Senex mais ativado

Pré Envelhecimento - Arquétipo do Senex mais ativado

  • Acolher “melhor” sonhos, desejos, necessidades tão particulares e tão únicos, tão pouco convencionais e coletivos.
  • Respeitar o vivido e não vivido

Amorosidade

Escutar e ajudar o pai nos preparativos e na concretização do casamento é aceitar o sonho , o desejo do outro, e respeitar o diferente. O arquétipo do Senex nos dá maior ensinamento para acolher nossos desejos, necessidades e sonhos, tão particulares e tão únicos, tão pouco convencionais e coletivos.

Ajudar o seu pai a realizar seu sonho é poder dialogar com seus próprios sonhos.

Pré Envelhecimento

Pré Envelhecimento
– Perder o Herói
– Reconhecer Herança
– Buscar dentro de si
– Dialogar a partir da alma/anima

Na fase do pré-envelhecimento, uma tarefa pode ser a de fortalecer o diálogo a partir do arquétipo do Senex, conversar e entender nossos desejos, sonhos, nossas frustrações e buscar maneiras para concretizá-los com respeito e amorosidade. É poder respeitar e cuidar do que foi vivido e não vivido.

Na revisão de sua vida, Rafael percebe que o restaurante era do seu pai e da sua mãe e não dele, e assim decide vender e aceitar a proposta da multinacional. A cena em que assina o contrato é muito simbólica: ele está pensativo na sala de reuniões, assina o contrato de venda e vê sua imagem envelhecida no vidro da mesa. É o Senex emergindo no seu reflexo.

Com a mãe, numa cena no asilo, ele consegue se abrir e falar de seus sentimentos, angústias e conflitos. Depara-se com a realidade da doença e o sofrimento da mãe, quando ela chora porque a mãe dela não liga mais.

Neste momento, a meu ver , surge um outro homem, retratado, agora, no seu olhar carinhoso e em sua atitude acolhedora e de profundo respeito para com a mãe, e simplesmente, falando que a avó ligará. Aqui ele vivencia o confronto com a finitude da vida e da sua eternidade.

Na cerimônia do casamento, vemos um Rafael sensível e criativo para concretizar o sim da sua mãe para seu pai, frente às dificuldades próprias da doença.

O filme finaliza com a festa de casamento, com Rafael revelando ao pai seu destino e a sua escolha, abrir seu próprio restaurante. Podemos imaginar que, agora, fala a partir de sua alma…

Quando penso no período de pré-envelhecimento, penso em refletir sobre formas e meios de fluir mais suavemente nas questões do envelhecimento, de abrir um diálogo saudável com esta etapa da vida, talvez de modo a nos “protegermos” das diversas formas de seduções, de controles e apegos.

Como diz Jung em A natureza da psique “a vontade é segurar os raios da roda que faz rolar os anos, de conservar a infância e a eterna juventude, de não morrer…”.

Podemos questionar se isso, que denomino diálogo saudável, não é algo para cuidarmos em todas as etapas da vida. Sim!

A busca do autoconhecimento é uma linha contínua. Porém, cada passagem desta linha demanda/exige um tipo de ajuste, um conjunto de necessidades e expectativas específicas, pois a cada momento se forma um novo cenário.

Nesta fase do pré-envelhecimento já conquistamos muitas coisas, a noção do tempo fica mais forte, parece que ele começa a diminuir. Na sacolinha da sombra há mais experiências, frustrações, machucados, cicatrizes.

É hora de algumas tarefas… E como em nossa sociedade somos carentes de rituais, precisamos descobrir quais são elas.

Ao assistir a este filme, e acompanhando familiares e pacientes que vivem este mesmo momento de vida, foram emergindo alguns pontos para reflexões.

Um deles é que, neste momento, o indivíduo sente uma profunda solidão, como se não tivesse mais chão. É o caos instalado.

Olhar os pais velhos e às vezes doentes é uma maneira de perder o herói. Não conseguimos mais enxergar o porto seguro que eles sempre representaram. É um momento de dialogar com o inexorável, com a finitude, com a morte.

Mas também é um momento de integrar/internalizar aspectos das figuras primárias – pai e mãe -, reconhecer a herança e buscar dentro de si e não mais fora. Por que agora surge o diálogo a partir da alma, da anima.

Precisamos integrar aspectos de nossos pais para podermos enxergá-los na velhice de forma mais inteira e respeitosa. Assim, podemos diminuir os sentimentos de culpa e de perda e, ao mesmo tempo, abrir espaço para discriminações que impactam diretamente em nossa atitude.

Nesta fase, como retratado no filme e como vejo no consultório, é muito comum que a crise desencadeie, num primeiro momento, um forte impulso de abandonar tudo e apoiar-se na realização de um sonho, o qual não entendemos muito bem, nem o porquê e muito menos o para quê.

Isso gera um efeito “rebote” da crise, jogando o indivíduo para o lado oposto. Muitos ficam neste outro lado, mas é apenas a gangorra ainda.

Acredito que vamos ganhando fluidez quando começamos a resgatar pequenas coisas do nosso cotidiano, dando sentido para nossa vida.

No filme, o diretor mostra com maestria isso acontecer na vida de Rafael, quando lê e se emociona com o poema escrito pela filha, quando se declara para a noiva, dizendo: quero viver todos os problemas com você, minha filha e com meus pais. Será este o sentido?

Ganhar a fluidez na lida com o que compõe o nosso cotidiano e não mais como uma resolução em que se termina ou zera algo; isto também é abandonar o herói!

Não fugir dos dramas atuais, não tentar impedir que o novo se aproxime, não se esforçar tanto para permanecer o mesmo, seja o que for este mesmo; ter consciência que esta é uma luta em vão, com um sentido único: a estagnação.

Talvez esteja aí o confronto com a eternidade e mortalidade, do Puer e do Senex. Fluir no cotidiano e ser eterno em cada momento novo que se apresenta em nosso dia-a-dia, seja uma alegria, uma dor e ao mesmo tempo lidarmos com a finitude, não devorando o novo ou o que esta por vir, mas sim desapegando e deixando morrer naturalmente o que tem que passar.

Obrigada!