Divertida Mente - Resenha

Divertida Mente

Resenha

por Stella Maximo 14/07/2016 Cine Encontro Divertida Mente - Resenha - Stella Maximo
Tags: auto conhecimento, reflexão, resenha

Divertida Mente é uma produção da Disney/Pixar, vencedora do Oscar 2016 na categoria de melhor animação, escrita por Pete Docter, Meg Le Fauve e Josh Cooley.O destaque está na maneira original e criativa de abordar um tema complexo e repleto de desdobramentos – as emoções e seus impactos no dia-a-dia da protagonista, a garota Riley, de 11 anos.

A história se desenrola em dois “sets”: o de Riley, que, desde bebê, vive em Minessota com sua família e seus amigos de escola e do time de Hóquei; e o da mente de Riley, com suas emoções personificadas: Alegria, Tristeza, Raiva, Nojinho e Medo, que movimentam uma complexa mesa de controle.

O filme inicia retratando o nascimento de Riley e sua infância, bem adaptada e feliz, junto a pais amorosos e dedicados, sempre trazendo a forma como a garota vive as diversas situações em sua mente, com a prevalência de uma ou outra emoção. Geralmente, a Alegria é quem toma a frente, fazendo de tudo para permanecer no controle, em especial quando a Tristeza tenta, em vão, marcar presença. Tudo caminha bem, até que um novo e diferente momento é vivido por Riley, quando sua família precisa se mudar para outra cidade – São Francisco.

A maneira como a garota, agora em seus 11 anos, vive essa nova etapa é retratada de modo brilhante e sensível, abrindo campo para muitas abordagens e perspectivas de análise. Aqui, vou trazer algumas reflexões, compartilhando com o leitor o que mais me tocou nesta história e que penso ser de grande contribuição não só para as crianças como para os adultos.

Começo pela maneira como as emoções são personificadas. Todos nós conhecemos e sentimos no corpo certa vibração quando estamos alegres, um aperto no peito quando estamos tristes, ou alguma sensação incômoda no estômago quando estamos com raiva. No filme, essas e outras emoções tornam-se mais palpáveis e facilmente observáveis, pois ganham caras, cores, vozes, dialogando, conflitando entre si e construindo enredos próprios. Com isso, nos aproximamos de seus desejos, de suas intenções, dificuldades e dramas. Para quem já assistiu ao filme, basta lembrar da disposição heroica da Alegria para manter as memórias de Riley sempre felizes, e de sua resistência à Tristeza, impedindo que esta “manchasse” o passado da garota…

Faço aqui um parêntese: penso que a personificação de emoções é também uma das maneiras de a psicologia clínica aprofundar reflexões sobre aspectos difíceis de serem por nós assimilados, e que, em alguns momentos, tomam conta de nosso ser. Ao personificar, temos a oportunidade de dialogar com essas emoções e sentimentos, abrindo novas perspectivas de entendimento, de modo a nos aproximarmos dos enredos e dramas que compõem a vida de todos nós.

Voltando ao filme, há um segundo ponto que nos traz a oportunidade de olhar de outro modo para a psique e seus movimentos e conexões: as memórias ganham cores, os sonhos, um estúdio, o inconsciente, um abismo. Com isso, podemos ver as emoções percorrendo e descobrindo esses lugares, fazendo arranjos que mexem nas atitudes de Riley, em seus pensamentos, norteando suas decisões. Contando com a licença poética que a arte permite, podemos perceber, analogamente, que há um mundo interior em cada um de nós que tonaliza a consciência, as atitudes, e parametriza lentes a partir das quais olhamos a vida.

Destaco também as conexões entre os personagens da mesa de controle. A história nos mostra como as emoções vão precisando umas das outras, bem como sustenta brilhantemente a importância do acolhimento entre todas elas, inclusive daquelas das quais tendemos a nos afastar no dia-a-dia. A Tristeza, por exemplo, no decorrer do filme, acaba obtendo uma legitimação, fazendo-se presente em um momento crucial da vida de Riley e até prevalecendo em determinadas lembranças. E esse reconhecimento é de suma importância para nossa saúde mental e física.

Outro aspecto que norteia o filme é a transformação vivida pela protagonista. No começo de sua vida, percebemos a predominância de uma única cor no seu mundo interior (amarelo/alegria), mas, ao final, este passa a ser colorido, contemplando todas as emoções de modo mais integrado (amarelo-alegria, azul-tristeza, verde-nojinho, lilás-medo, vermelho-raiva).

Esta é uma perspectiva que muito aprecio: a possibilidade de pintarmos a vida com inúmeras tonalidades, e nos divertirmos com isso! Por que não?