Envelhecimento - Diálogos com o Herói

Envelhecimento

Diálogos com o Herói

por Stella Maximo 03/10/2013 Artigos Envelhecimento - Diálogos com o Herói - Stella Maximo

Objetivo: Refletir sobre aspectos que impactam o envelhecer, de modo a desvendar novos sentidos e olhares que nos possibilitem viver nosso destino de modo mais criativo e profundo.

Por acaso, surpreendo-me no espelho: “Quem é esse que olha e é tão mais velho do que eu?
Mario Quintana – O velho do espelho

Introdução

Estamos envelhecendo mais…

Estudos apontam que, pela primeira vez, a população com mais de 60 anos de idade será maior que a de crianças com menos de cinco anos; há, sem dúvida, um aumento progressivo da longevidade e da expectativa de vida.

Trata-se de um novo momento da humanidade, que traz inúmeros desdobramentos, tanto de ordem social, econômica, geográfica quanto psicológica.

Noto que as questões relacionadas à velhice e ao envelhecimento ganham destaque, seja nas pesquisas acadêmicas dos profissionais da saúde, nos livros escritos por filósofos renomados, no mundo das artes, nas peças de teatro e filmes, nos blogs e sites do universo digital.

Tema abrangente, complexo e instigante, e que deve ser analisado a partir de vários pontos de vista, o envelhecimento, de algum modo, procura seu espaço, com as pessoas buscando maneiras de se relacionar com essa questão e seus desdobramentos.

O foco que busco no envelhecimento é a fase dos 50 aos 70 anos, período da vida que considero propício para uma reflexão sobre os temas da velhice e morte, os quais se aproximam, como o da juventude que se afasta.

Assim, nesta fase, vários temas podem ser mobilizados e vários diálogos criados, propiciando um aprofundamento. E como um primeiro, trago o herói por ser uma regência marcante e importante na nossa cultura, sociedade e na nossa psique.

Propor um diálogo com esses dois grandes temas esta sendo uma tarefa, neste momento da minha vida, desafiadora e provocadora. Trago, portanto alguns pontos para iniciarmos o processo de reflexão, de diálogo que considero necessário e urgente, na vida de todos nós, sem a pretensão de ser o único.

Desafios diante do prolongamento da vida

Inicio compartilhando a conclusão de uma pesquisa, que me chamou atenção. Foi apresentada no III Congresso Internacional de Envelhecimento Humano, realizado em junho deste ano, com o tema: “A produção científica em periódicos online: uma reflexão sobre o significado do envelhecimento saudável e/ou bem sucedido”. Os autores estudaram uma amostra de 82 artigos, e concluíram que o envelhecimento saudável e suas multidimensionalidades são temas de grande relevância, porém pouco estudados. A maioria dos estudos que tratam o tema está relacionada com fatores patológicos e com a repercussão negativa do envelhecimento. Ou seja,conlcui os autores “o envelhecer significa limitar o ser e não um processo natural da vida” (SANTIN, 2010)

A conclusão desta pesquisa, reflete, de alguma maneira, a dicotomia com a qual as questões do envelhecimento estão sendo, ainda, vivenciadas em nossa sociedade. Há uma nítida separação entre saúde e doença, vigor e decadência, para citar apenas algumas, mas mostra o afastamento e, consequentemente, o nível de negação de tudo que envolve o envelhecimento e o processo da vida.

Assim, apesar de vários aportes e ações, como dito anteriormente, de se buscar formas de se relacionar com o envelhecimento, continuamos na gangorra. O tema ainda envolve muito preconceito, mostrando o quanto estamos amedrontados, desorientados e desinformados sobre o prolongamento da vida.

Mas é preciso sair da gangorra sombria dos opostos em que somos facilmente capturados, de modo a interagir com mais espontaneidade frente ao que é de mais natural na vida, o próprio envelhecimento. Afinal, esta é a direção, o “telos” da psique, o sentido da existência, revelando sua intencionalidade, indo além da vontade e compreensão conscientes.

Importante considerar também o sistema cultural no qual estamos imersos, seus modelos e padrões que impregnam nossa concepção de mundo e forma de viver.

O processo de civilização em nossa sociedade silenciou, na modernidade, os aspectos naturais e biológicos da velhice e da morte, com significados culturais que mais atrapalham do que auxiliam na construção de uma vida mais digna, segundo o historiador Alarcon Agra do O (2008).

Sabemos que a imortalidade e a busca de eterna juventude são sonhos arquetípicos do homem ao longo da sua existência. E a nossa sociedade ocidental e moderna esta ancorada na valorização da juventude, modelando nossos referenciais, desejos, nossas ações e atitudes.

Presenciamos os grandes investimentos feitos na atualidade, na tentativa de afastar e adiar o maior tempo possível a velhice; neste sentido, o processo de envelhecimento é vivido sob a perspectiva da busca do rejuvenescimento.

Penso que a direção está um tanto equivocada.

Podemos também notar que os anos que eram vividos como velhice há um tempo, hoje, são vividos de modo diferente, em especial o período de 50 a 70 anos. Com a longevidade, este período, passa a ser composto por novas e diferentes experiências, ganhando expressividade. É como se estivesse num meio de caminho, nem tanto velho nem tanto jovem; e é potencializado pelo espelhamento com a velhice, seja pela sua proximidade, ou pelos sinais que já vão despontando tanto física como psicologicamente, tanto quanto pelo distanciamento da juventude.

Com isso, as fases da vida e seu prolongamento alcançam contornos diferenciados. Ganhamos, num certo sentido, mais momentos para repensar aspectos importantes e tempo para criarmos e desenvolvermos maneiras de dialogar com essas questões.

Como já dizia Jung, “o ser humano não chegaria aos 70/80 [agora 100 anos], se esta longevidade não tivesse um significado para sua espécie; por isso, a tarde da vida humana deve ter também um significado e finalidade próprios, e não pode ser apenas um lastimoso apêndice da manhã da vida” (JUNG, 1991, parag. 787).

Assim, a longevidade e o envelhecimento estão repletos de sentido e pedindo novos olhares.

Herói, importância e diálogos

Em nossa cultura, a regência do herói é muita expressiva. Com isso, sua dinâmica reflete um modo de consciência e revela com qual lente estamos enxergando e nos relacionando com as questões da vida, e também com que intensidade estamos submetidos a seus desígnios. De fato, sua ligação com a estruturação da consciência e desenvolvimento do ego é muito marcante.

Como a regência arquetípica do herói porta inúmeros aspectos, seleciono apenas aqueles que possibilitam um diálogo com as questões do envelhecimento, sem a pretensão de esgotar esse assunto.

O herói representa a natureza humana, e muitas vezes é envolvido pelos desejos, cobiça, vaidade, arrogância e pela hybris. Traz consigo as características do guerreiro, que luta, batalha e conquista. Busca a glória, a imortalidade, mas é aquele que também aprende (CAMPBELL, 2008).

A partir do ponto de vista do herói é que nos movemos para a clarificação, como diz Hillman (2013), por meio de contrastes, busca de precisão e de clareza nos fatos. O ego heroico divide para conquistar, precisa enxergar com esta clareza e nos desafia com enormes tarefas, com o desejo de dominar.

E é com esta perspectiva que adentramos na vida, e partirmos rumo às conquistas, lutamos para conseguir alcançar nossos ideais e realizar nossos sonhos.

Na juventude e durante boa parte da fase adulta, o arquétipo/ a regência do herói está muito presente, forjando, mais intensamente, nosso ego. Nesse período estamos conquistando nossos espaços, criando competências para lidar com a complexidade da vida, construindo carreiras, famílias, adquirindo bens. Assim alcançamos muitas de nossas metas e, também, experimentamos ganhos e perdas.

De algum modo, nesta fase do envelhecimento, chegamos a algum lugar, seja desejado, planejado ou por “acaso”. Formamos nossa identidade, nossa imagem, tanto para nós mesmos como para o coletivo; temos um jeito de viver, de nos relacionarmos e de estar no mundo.

Contudo, o momento em que o envelhecimento começa a ser percebido, seja pelos sinais físicos, emocionais ou sociais, ele pode ser vivido como algo estranho, como obstáculo, como contrário à vida, até porque nele chegamos com este ritmo acelerado e com uma sacolinha repleta de experiências, conhecimentos e verdades.

Podemos considerar que chegamos com uma fantasia heroica, como aponta Donfrancesco (1996, p. 22), que necessariamente vê adversário em tudo o que percebe como obstáculo à constituição e à afirmação de um Eu grande e forte”.

Com isso, faz parte desta fantasia heroica, o medo de nos tornarmos fracos e fragilizados, mediante a perda do que já conquistamos e conhecemos. Trata-se, na verdade, do medo da morte, que nos faz recuar diante das exigências da vida e, consequentemente, do próprio envelhecimento. Deste modo, podemos, inclusive, nos apegar somente aos aspectos guerreiros do arquétipo do herói, e continuarmos partindo em aventuras e batalhas com as ferramentas conhecidas, mas, agora, insuficientes.

E é aí que perdemos. E é aí que nos distanciamos da alma. Será que nos damos conta do quanto estamos mergulhados nesse ponto de vista? Como as nossas atitudes e tomadas de decisão estão sendo regidas por essa dinâmica e seus desdobramentos de luz e sombra?

Vemos por todos os lados pessoas tomadas pelo desejo da imortalidade, traduzido por atitudes estereotipadas frente, por exemplo, à alimentação, aos exercícios físicos, na busca fantasiosa e sem limites do corpo perfeito, de cirurgias, pílulas, fórmulas mágicas para manter o vigor e a força. Queremos conquistar aquilo que já foi, a juventude, queremos ter controle do tempo, poder sobre nosso destino, queremos, enfim, conquistar competências que não pertencem ao mundo dos mortais.

Com isso, nos apegamos a nossas atitudes heroicas, permanecendo na unilateralidade (Hilman, 2013) e nos tornando caricaturas, na medida em que não suportamos as transformações físicas que o tempo e o envelhecimento deixam expressas em nosso corpo. Entramos numa luta com a própria vida, com o propósito da vida, com o “telos” da alma.

Pergunto: este período do envelhecer não nos traz a possibilidade de perceber os nossos diferentes “eus”, o infantil, o jovem, o maduro, o velho, o inadequado, o doente, o sábio, o briguento, só para citar alguns, permitindo assim a abertura para a pluralidade da nossa pisque? Será que este não é um momento em que podemos nos distanciar do nosso ego heroico, que estabelece as regras e o controle, buscando relações mais simétricas?

Penso que esse prolongamento da vida que estamos hoje tendo a oportunidade de viver seja uma das formas da psique/ da alma nos trazer novamente o contato com as diversas figuras imagéticas com as quais temos por vezes, dificuldade de nos relacionar. Talvez seja uma oportunidade para o ego heroico se render. Como diz Hillman (2010, p. 95),ter “o ego como membro desta comunidade” – e não mais como o herói dela.

Dialogar com o ego heroico pode nos livrar do fascínio a um único modelo de beleza, perfeição e juventude, e da batalha contra o envelhecimento, essa negação para com o processo da vida.

Por outro lado, a energia arquetípica do herói faz parte da nossa vida psíquica. Sabemos que sua recusa pode nos levar, segundo Campbell (2008, p.66), “a um aprisionamento pelo tédio, pelo trabalho duro ou pela cultura, e assim perdemos o poder da ação afirmativa dotada de significado e nos transformamos numa vítima a ser salva”.

Nessa perspectiva, precisamos entender o herói que existe em nós, ter consciência do desdobramento que sua força acarreta em nossas atitudes, seja nos deixando levar por ela ou pela sua recusa. Nossos quereres e nossas necessidades podem, sem dúvida, estar traduzindo uma dinâmica heroica.

Ou seja, esta dinâmica heroica precisa ganhar novas dimensões na fase do envelhecimento; o diálogo se faz necessário, para que nosso ego tolere a verdade, experimentando viver o que tem de ser vivido. Nessa perspectiva, nos colocamos em relação à alma, buscando refletir sobre o que ela tem a nos dizer, buscando um aprofundamento de consciência e, com isso, um enraizamento em nós mesmos. Como diz Hillman, “ as raízes da alma que governam as perspectivas que temos de nós mesmos e do mundo” (HILLMAN, 2010, pp. 28-33).

Dialogar com o herói que existe em nós nesse momento significa refletir sobre as forças numinosas, míticas, que movimentam nossa psique e dão o tom a nossa vida. Isso significa aprofundar nossas histórias, refletir sobre as vitórias e derrotas de nossa jornada heroica, que antecedeu esse período, deixando de lado o orgulho para nos inclinarmos aos desígnios do intolerável. O olhar muda da conquista, do controle e do poder para agradecimento, abarcamento, respeito e comunhão. Temos então a oportunidade de mergulhar no velho e de nos nutrir com o que “nutre a velhice: companheirismo, liberdade, natureza, silêncio, simplicidade”(HILLMAN,1999, p.86).

Por fim, trago uma passagem do mito do herói Hércules, citada por Hillman (2010, p.107): “quando Hércules foi ao mundo das trevas, ele forçou o deus Hades a fugir de seu trono após tê-lo ferido no ombro. Hércules entrou no reino das sombras para apoderar-se de algo e, enquanto esteve lá, lutou, puxou sua espada, matou e ficou confuso com a realidade das imagens”. Conclui o autor: “Temos todos nós uma tendência a sermos Hércules no ego quando iniciamos um envolvimento com as figuras imaginais”. Como o herói, empunhamos nossa espada contra o envelhecimento, desorientados, tendo a morte como inimiga.

Conclusão

Concluindo, reconhecer essa abrangência significa ter humildade diante de algo muito maior, que é o mistério do inconsciente, e com isso transformar nossa atitude, contemplando esse mundo invisível que se faz presente em nosso dia-a-dia.

Diante de tudo isso, dialogar com o herói que existe em cada um de nós, neste momento de nossas vidas, é reconhecê-lo em suas várias faces, tanto quanto desapegar-se daquelas que não cabem mais neste momento, privilegiando outras que permitam a transformação necessária e até mesmo que novos símbolos emirjam como orientadores de nossa consciência.

Podemos estar mais receptivos às exigências arquetípicas do envelhecimento, lapidar nossa atitude para absorver as demandas que virão, mas com a sabedoria que permite sentir tanto as dores quanto os prazeres, tendo a alma como nosso guia, e assim vivermos criativamente nosso destino.

Referencias Bibliográficas

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A força do Caráter. São Paulo: Objetiva, 1999.
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Site: http://www.rubedo.psc.br/Entrevis/entrhilm.html – acessado em jul/2013

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http://www.editorarealize.com.br/revistas/cieh/trabalhos/Comunicacao_oral_idinscrit o_2015_b8988d3f1ca43ce4912308331bfbe11c.pdf, acessado em jul/2013 

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