Construir um diálogo com os deuses e fazer alma no envelhecimento - artigo apresentado no Congresso Latino-americano 2015

Construir um diálogo com os deuses e fazer alma no envelhecimento

artigo apresentado no Congresso Latino-americano 2015

por Stella Maximo 24/06/2015 Artigos Construir um diálogo com os deuses e fazer alma no envelhecimento - artigo apresentado no Congresso Latino-americano 2015 - Stella Maximo
Tags: deuses, envelhecimento, longevidade

Este trabalho é uma continuação de minhas reflexões sobre as questões que envolvem a longevidade.

Em meu primeiro artigo, “Diálogos com o Herói”, abordei alguns aspectos do arquétipo do herói, a maneira como impacta em nossas atitudes, no período da vida por volta dos 50 aos 70 anos de idade, no qual o processo de envelhecimento ganha, pouco a pouco, maior destaque.

Aqui, meu intuito é pensar em caminhos que colaborem para que outras regências arquetípicas ganhem espaço em nossa consciência e assim possamos, com perspectivas diferentes, construir novos diálogos e facilitar a educação para o cultivo da alma.

Dando início a esta reflexão, trago alguns dados oriundos de estudos e palestras sobre envelhecimento e longevidade realizados pela Dra. Ana Amélia Camarano, economista e demógrafa Diretora de Estudos Macroeconômicos do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e Dr Alexandre Kalache, médico gereontologista; são eles:

1- No século XX, uma das maiores conquistas sociais foi o aumento na linha da longevidade; a humanidade, de fato, está vivendo mais. Já no século XXI, este tema chega em forma de desafio;

2- O envelhecimento populacional atinge quase todas as nações ao redor do mundo, gerando um grande impacto nos âmbitos coletivo e individual. O prolongamento da vida é ponto de discussão no mundo todo, faz parte de uma agenda política e social, trazendo profundas transformações econômicas, sociais, políticas, nos sistemas de valores e arranjos familiares;

3- Para as políticas públicas, um dos mais importantes desafios é assegurar que o processo de desenvolvimento econômico e social ocorra de forma contínua, com base em princípios capazes de garantir tanto um patamar econômico mínimo para a manutenção da dignidade humana quanto a equidade entre os grupos etários na partilha dos recursos, direitos e responsabilidades sociais;

4 -Temos 30 anos a mais do que nossos avós, em nosso caminho pela vida.

Com este panorama, podemos sentir que as questões do envelhecimento tocam todos nós, independentemente, da idade. A sociedade de um modo geral, e cada um de nós, ainda tropeça na questão do envelhecimento; portanto, há necessidade de maiores reflexões na busca por uma atitude que suporte os desafios e que sustente diálogos mais sofisticados frente aos desdobramentos inerentes a este processo, sejam eles: positivos ou negativos, esperados ou inéditos, fáceis ou difíceis, além de maneiras que permitam identificar possíveis armadilhas.

Portanto, uma reflexão que considere os modelos e os valores vigentes em nossa cultura, como a valorização da juventude, da eficiência, da precisão, é primordial, até porque eles se desdobram em promessas de alívios, em busca de soluções rápidas e nas corridas por triunfos, podendo nos mover para um estado autocentrado, até mesmo patológico e quem sabe narcísico.

De fato, precisamos pensar o quanto estamos mergulhados nesses modelos e como somos por eles impactados, o grau de permeabilidade e portanto de inconsciência. Como essas questões modelam nossas lentes para com a vida, e como formam os alicerces das nossas atitudes com lemas, dogmas e verdades únicas.

Na clínica com pacientes que estão envelhecendo, percebo que as vivências deste momento da vida tornam-se lutas para sair dos fracassos, derrotas e limitações e retomar aspectos da vida que já passaram, como os sucessos dos momentos quando estiveram nos topos. A leitura que fazem de suas próprias vidas ocorre de modo concreto e ofusca a própria história, reduzindo-a em objetos a serem possuídos e tomados de volta. Na impossibilidade, fica o abismo do intransponível que os desconecta da alma.

Nesta dinâmica, noto também que, muitas vezes, as escolhas feitas tornam-se “passivos”, num ajuste de contas com tudo e com todos, incluindo a própria vida. A culpa se instala, restando tão somente a sensação de paralisia e sofrimento.

O movimento é em busca de culpados, sejam aqueles de fora ( marido, filhos, a vida) como os de dentro( dores, angústias, necessidades). Assim, quando estamos envoltos na órbita da culpa, perdemos o sentido de responsabilidade das escolhas feitas Na visão de James Hollis (2013), a culpa torna-se a defesa frente às angústias mais profundas. Muitas vezes, a culpa nos leva aos estados de inflação, como nos mostra Pedraza (1997) sem poder acessar os fracassos. Em outras, emerge quando tentamos sair dos caminhos autorizados pela educação familiar, valores e mesmo tradições culturais, lembrando aquelas nas quais estamos imersos.

Este sentimento culpabilizante pode ser uma das armadilhas, já que, sem percebermos, erguemos barreiras, nos blindamos de modo a ficarmos impedidos de ter acesso a outras perspectivas, de modo que a culpa nos coloca à mercê de um mundo carente de imagens.

Ou seja, o envelhecimento pode acontecer, para algumas pessoas, também, num mundo desprovido de imagens.

Compartilho então algumas falas de pessoas que estão entre os 50 e 70 anos, ainda muito ativas: trabalhando, estudando, com projetos em andamento, alguns dos sonhos já realizados, mas que mostram certa dificuldade de dialogar com as imagens. E, apesar do recorte das histórias, conseguimos perceber a presença de um efeito paralisante.

Uma mulher aos 62 anos de idade – Olho o futuro e não vejo nada.

Uma mulher de 51 anos – Esqueci o fogo acesso e um compromisso importante; apesar do psiquiatra afirmar que não é Alzheimer, preciso de uma ressonância do cérebro.

Uma mulher aos 56 anos – Hoje estou sem trabalho, sem o meu dinheiro, sei que fiz as escolhas certas, mas a rota foi mudada, em função da carreira do meu marido, e não consigo parar de pensar que estou assim por conta disso.

Um homem aos 57 anos – Como é difícil falar das fantasias que surgem em minha mente.

De fato, o envelhecimento pode esbarrar, também, na dificuldade de lidar com tudo que é desconhecido, com o inesperado, com a impermanência.

Sabemos o que é envelhecer, mas de que maneira estamos nos aproximando da velhice? Acredito que, ainda, com um tanto de surpresa, medo e reatividade. Longe da alma.

Os exemplos citados nos mostram que os diálogos podem se restringir na busca de respostas exatas de sim ou não, permanecendo na superficialidade. As equações lineares e concretas nos orientam para um estado fantasioso e defensivo com pouco ou nenhum espaço para os pensamentos criativos e reflexivos.

Há sim uma maximização das forças egocêntricas, que nos fazem apenas patinar, sem sairmos do lugar. Temos apenas um monólogo.

Com essas atitudes, o envelhecimento pode ganhar contornos, no mínimo, distorcidos. É preciso parar e perceber como estamos caminhando para o encontro da velhice. Precisamos escutar os medos, acolher os lapsos, conversar com as fantasias.

Como também, ter disposição e confiança para reconhecer, aprender e valorizar outros cantões da psique, isto é outros personagens: aquele que ri de si quando troca os nomes dos filhos ou mesmo que erra o número do seu CPF, ou aquele que pacientemente desce as escadas, ou aquele que conta e reconta suas histórias com espontaneidade, e também aquele que se olha e se reconhece diariamente no espelho. Aspectos reprimidos culturalmente e também obscuros e desconhecidos de uma consciência cujo ego está no comando, buscando sempre o acerto, a agilidade, a rapidez, a história perfeita, e o rosto lisinho.

Um tipo de consciência que possa se relacionar com as imagens no mundo, tanto quanto nas vivências mais simples do cotidiano.

A tomada de consciência de questões tão inerentes a nossa vida, como nossos sentimentos de culpa, medo, angustias, torna-se relevante, na fase de envelhecimento, em que demandas novas e desconhecidas começam a surgir. Afinal, após os 50 anos, temos pela frente mais ou menos 30 anos supostamente que podem ser vividos de muitas maneiras, e de certo modo não temos receitas prontas.

Observamos que o medo frente ao desconhecido, ao envelhecimento, à velhice e à morte precisa ganhar espaço na singularidade de cada de nós e não ficar, apenas, nas garras defensivas do ego.

Precisamos contar com uma perspectiva de alma, que contemple a vivência interior, o mundo das imagens e que consiga abrir espaços para outros tipos de perguntas: quem em nós esquece o fogão aceso? Quem em nós confunde os dias na agenda de compromissos? Quem em nós fantasia? Quem em nós não perdoa?

Nesta perspectiva, podemos acessar outros aspectos do nosso ser, outras formas de olhar as mesmas questões.

Mas, para tanto, é preciso nos movermos para uma re-educação, a educação para alma. Destaco uma passagem do livro de Francesco Donfrancesco, No espelho da psique.

… A educação para a alma, que é interminável, se volta não tanto para demonstrar e definir, mas para exprimir, suscitar e afinar a sensibilidade e, portanto, para educar a linguagem, para ouvir a voz, para observar a imagem visível com a atenção dirigida para o pormenor, para discernir os sons, para perceber o espaço, para distinguir os odores e os sabores, sendo este último o ato que deu nome a sabedoria, saborear. Uma educação voltada para a complexa e multiforme compreensão da alma. (2000, p.12)

Educarmos o ego significa, então, acrescentar a disponibilidade para negociar e dialogar com a pluralidade existente na própria natureza interna e externa; é também acertar o ritmo para que possamos ir em direção ao aprofundamento, além de abrir mais espaço para os diferentes seres que nos habitam.

Assim, temos a oportunidade de reconhecer novas perspectivas para viver, e portanto, para envelhecer, agora com a alma mais presente, nos lembrando das imagens, das profundezas, da multiplicidade. ( Hillman,1995).

Mesmo com as dificuldades e impedimentos que o processo de envelhecimento carrega em si, nosso foco deve se alinhar nesta educação para Alma. Pedraza nos indica um caminho:

Hoje em dia, podemos ser educados uma vez mais pelos gregos. Temos recebido de sua mitologia a constante possibilidade de um renascimento da psique. Sim, temos sido educados pelos gregos, mas para sermos precisos, eu acrescentaria, pelos poetas gregos. E considero essa educação como uma educação da alma, uma educação psíquica. E essa educação da alma através da poesia – do antropomorfismo poético-mitológico – é a fonte da qual o homem ocidental pode extrair inesgotavelmente aquilo com que se educar e recriar a alma. (1997,p.13)

No livro Teofania, Walter Otto (2006), traz a ideia de como o diálogo com os deuses revela que há muito mais em nossas experiências do que aquilo que costumamos tomar nota. E faz uma advertência importante do quanto o sentimento de sermos possuidores de potências numa perspectiva puramente egoica interrompe qualquer diálogo possível com o divino: história, antepassados, cosmovisão.

Assim, construir os diálogos com os deuses é construir diálogos na perspectiva da alma, acessando a diversidade de enredos que fazem parte da nossa história bem como os diversos personagens: suas características e jeitos.

Cito novamente Walter Otto:

…os deuses não se manifestam apenas nos fenômenos da natureza e nos acontecimentos fatais, manifestam-se também no que move o homem interiormente, determinando sua atitude e suas ações. Em um mundo pelo divino, o homem grego não olha para seu íntimo em busca da origem de seus impulsos e de suas responsabilidades, volta os olhos para a amplitude do Ser e onde nós falamos de disposição interior, encontra as realidades vivas dos deuses”(2006, p.69)

Os deuses são maneiras de experimentar o mundo, de imaginar o mundo, trata-se, portanto, de uma perspectiva sobre os fatos, as vivências e as coisas de um modo geral. O mundo anímico, com alma, é um mundo em que podemos refletir sobre nossas experiências e o divino é entendido como potências, dimensões e modo de agir. O diálogo, nessas bases ajuda no aprofundamento em todo e qualquer momento da vida, como também cria espaços que favoreçam a diferenciação, a elaboração, a particularização.

A partir dessa perspectiva que compartilhei com vocês, percebo que não se trata de uma escolha pessoal aceitar ou não a presença dos deuses, mas sim uma realidade, com possibilidades de dialogarmos com “eles” os deuses e nos tornarmos conscientes dessas instâncias que nos habitam, ou adoecermos, por não atender suas exigências arquetípicas e portanto naturais de nossa psique.

Hilman nos lembra que “a velhice invoca outros deuses, e são necessários muitos e longos anos para conhecê-los; suas exigências e inspirações podem ser de outro tipo mas não podem ser rejeitados”(2001,p.16)

Assim, quais deuses ou deusas estariam presentes nos momentos que vamos envelhecendo? Quais poderiam tornar esse caminho mais espontâneo, mais fluído, mais prazeroso?

Na busca dessas respostas, trago alguns exemplos, na tentativa de iluminar possíveis formas de construção dialógica.

Dia desses, a matéria O Feitiço do tempo – da Revista Serafina – Folha de São Paulo, me chamou a atenção traz depoimentos de sete mulheres que não brigam com o tempo, uma em especial trago para nossa reflexão. Virginia Punko, foi jogadora de basquete e modelo internacional nos anos 80 em seu depoimento ela coloca: “A gente precisa aprender a se olhar no espelho”.

Parei e me perguntei: se olhar no espelho? Algo simples, rotineiro, muitas vezes automatizado, e ao mesmo tempo como pode se tornar uma tarefa tão difícil? Quantas vezes olhamos e não nós vemos? Como fazer deste olhar um diálogo que contemple tanto o corpo como a alma?

Pensando nos deuses e deusas, será que Perséfone com seus conhecimentos das profundezes, estaria presente neste olhar?

Ou Nix a deusa da noite e alguns de seus filhos, que nos visitam nos momentos que nos recolhemos e de certa forma exigem que dialoguemos com os aspectos mais sombrios da nossa alma, estes dos barulhos, dos medos aumentados, das recordações dilacerantes?

Quem sabe ao dialogar com essas deusas, saber de suas presenças, possamos ter mais recursos para buscar uma outra versão de nós mesmos?

E quanto aos lapsos de memória e os esquecimentos, como uma das falas que dei como exemplo a pouco, ao invés de buscar, no impulso, uma resposta no exame de ressonância, será que conseguimos um diálogo, quem sabe com a Deusa Mnemosine Como será que ela se apresenta no envelhecimento? Será que é com ela que podemos fazer novos recortes da nossa história? Será que com suas filhas, as musas, possamos dar outros tons para nossas lembranças? Lembrando que recontar nossa história é também uma maneira de nos aproximarmos mais da nossa alma.

E Dioniso esse deus, também considerado múltiplo, exige algum tipo de diálogo no envelhecimento? Será que é ele que exige uma conversa quando nos sentimos partindo ao meio com as dores nos quadris ou na lombar? Ou, mesmo se encurvando com as dores nos joelhos? Será que esta é mais uma maneira dos deuses chamarem nossa atenção para a alma a partir do nosso corpo?

Quem em nós pode rir dos deslizes? Quem em nós pode quebrar as agendas tão planejadas? Quem em nós pode ajudar a acolher o inesperado? Quem em nós permite as surpresas ? Quem em nós pode ser, também, erótica no envelhecimento?

Para finalizar, trago o poema de Adélia Prado – Erótica é a Alma” e sem dúvida com a presença de Afrodite.

“Todos vamos envelhecer… 
Querendo ou não, iremos todos envelhecer.

As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar.

A imagem no espelho irá se alterar gradativamente e perderemos estatura, lábios e cabelos.

A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, o viço dos vinte e o erotismo dos trinta anos.

O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior: tirar o pó, dar brilho, trocar o estofado, abrir as janelas, arejar o ambiente.

Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior. E, quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte para suportar.

Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história.

Que usa a espontaneidade pra ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos.

Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios.

Erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo.

Erótica é a alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores.

Aprenda: bisturi algum vai dar conta do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.”

Nesta perspectiva, o envelhecimento ganha a singularidade dentro da própria história de cada um de nós. Na intimidade, o diálogo ganha espontaneidade com tudo e com qualquer desafio que possa se apresentar no caminho do envelhecimento. Podemos assim ter a oportunidade de preencher nossa alma com imagens, inúmeras imagens.

E quem sabe… no lugar de performance as epifanias dos deuses

Referencias bibliográficas

Barcellos, Gustavo – A rede politeísta: politeísmo grego e psicologia arquetípica – seminários – 2014 e 2015.

Donfracesco, Francesco – No espelho da psique. Editora Paulus, São Paulo, 2000.

Hillman, James – A força do caráter. Editora Objetiva, 2001.

Psicologia Arquetípica. Editora Cultrix, São Paulo, 1995.

Re-vendo a Psicologia. Editora Vozes, Petrópolis, 2010.

Hollis, James – Os pantanais da alma. Editora Paulus, São Paulo, 2103.

Otto, Walter Friedrich – Teofania: O espírito da religião dos gregos antigos. Editora Odysseus, São Paulo, 2006.

Pedraza, Rafael López – Ansiedade Cultural. Editora Paulus, São Paulo, 1997

Camarano, Ana Amélia – http://www/ipea.gov.br/agencia/imagens/stories/PDFslivros/Arq_16cap_08pdf http

Kalache, Alexandre – http://www.cpflcultura.com.br/wp/2014/08/21/a-revolucao-da-longevidade-com-alexandre-kalache-versao-tv-cultura/