Aconselhamento de Carreira - Uma proposta terapêutica que busca atender as demandas e desafios da vida profissional.

Aconselhamento de Carreira

Uma proposta terapêutica que busca atender as demandas e desafios da vida profissional.

por Stella Maximo 30/09/2009 Artigos Aconselhamento de Carreira - Uma proposta terapêutica que busca atender as demandas e desafios da vida profissional. - Stella Maximo

O objetivo aqui é compartilhar com o público uma experiência de trabalho clínico que vem ganhando forma ao longo dos últimos 10 anos. A proposta consiste em dar apoio às pessoas que se encontram num momento crítico de suas carreiras profissionais.

Para iniciar, considero importante apresentar o contexto no qual essa experiência surgiu.

Após 12 anos atuando na área da Psicologia Organizacional, vivenciei uma crise profissional. Nesse momento, o ritmo acelerado no trabalho e o descontentamento com as atividades que desenvolvia já atingiam a minha saúde física. Algo tinha de ser feito.

Em minhas reflexões, identifiquei um grande desejo de me aprofundar em temas da Psicologia, mas, ao mesmo tempo, não queria desprezar todo um caminho construído e que, de alguma forma, havia me ensinado e me agraciado de muitas formas.

Vi-me frente a um paradoxo: como conciliar duas demandas que, a princípio, pareciam tão distantes uma da outra? Somado a isso, tinha uma necessidade, tanto pessoal como financeira, de dar continuidade as minhas atividades profissionais. Havia uma questão de tempo…

Este era, naquele momento, um cenário que me desafiava. Mas à medida que fui considerando, aceitando e incluindo as diversas demandas, elas foram deixando de ser tão distantes uma das outras; e mais: foi surgindo um caminho, uma alternativa de trabalho que nomeei Aconselhamento de Carreira.

Então, vamos lá…

As questões relacionadas ao trabalho/carreira têm em si uma complexidade devido a algumas peculiaridades.

O trabalho é, na vida das pessoas, um dos pilares de maior importância, principalmente, por estar atrelado à fonte geradora de sustento no mundo concreto, reafirmando o direito ao suprimento das necessidades básicas e às condições dignas de vida; enfim, o trabalho ressoa nas bases econômicas da estabilidade familiar.

Além disso, o trabalho está intimamente ligado à identidade da pessoa, ao seu projeto de vida. É uma das formas de expressão da essência do ser humano, uma possibilidade de relação com seu meio social e de sentir-se aceito pela comunidade, podendo ser, inclusive, a única forma de convívio com os outros.

O trabalho também possibilita à pessoa exprimir a sua criatividade, realizar seus desejos e sonhos, suprir suas necessidades e ganhar um espaço na sociedade.

Assim, uma crise nessa esfera da vida abala todas as outras, atinge a identidade e a autoestima.

Somado a isso, a crise profissional tem uma particularidade, que fui percebendo ao longo dos meus atendimentos: ela é encarada, muitas vezes, como incompetência profissional, desajuste, falta. Isto acontece, em grande parte, porque o mundo das organizações estimula e exige um modelo de profissional de sucesso, e aqueles que nele não se encaixam estão “fora do jogo”.

Com isso, as pessoas buscam, num primeiro momento, alternativas para suprir a incompetência frente a esse modelo externo e estereotipado, muitas vezes limitando-se à realização de cursos, ao modo de se vestir, ao uso de determinados objetos e até mesmo adotando certos comportamentos. Como  Jung coloca “qualquer tipo de casca exterior exerce um grande fascínio, porque representa uma fácil compensação das deficiências pessoais”.vol VII – 2

Cria-se, desta forma, um atalho, que por um lado fortalece a persona profissional, mas, por outro, leva ao afastamento do seu eu, da sua individualidade, da sua Alma. Há um agravamento da crise.

Após essas inúmeras tentativas “externas”, as pessoas buscam uma ajuda especializada, sendo que, neste momento, encontram-se fragilizadas e com um sentido de urgência.

Assim, no trabalho de aconselhamento de carreira o essencial é acolher essas duas demandas: a urgência, considerando o significado do trabalho na vida daquela pessoa, e a Alma, que está pedindo para ser escutada.

A urgência pede a diretividade, praticidade e o agir. A alma pede o aprofundamento, a espera, a quietude. Para atender essas dimensões tão paradoxais, é necessário um olhar que permita conciliar aspectos diferentes e que busque a união.

Este é um dos pilares do trabalho de Aconselhamento de Carreira: durante todo o processo, é preciso estabelecer um canal fluido de comunicação com essas duas demandas.

O arcabouço teórico da Psicologia Analítica possibilita uma sustentação desse processo, ampliando as possibilidades do paciente e também do terapeuta, permitindo uma consistência no entendimento da dinâmica tanto da crise como da própria vida. Privilegiamos, assim, uma alquimia dessas dimensões, que podem ser consideradas como dois níveis da psique: Ego e Self/Alma.

Conforme Dr.Glauco Ulson, se pensarmos no tempo como eixo da Alma, podemos também, simbolicamente, compreender crise e vida na perspectiva de Khronos e Kairós, o que colabora tanto no entendimento como na condução dos fatos.

Vejamos:

Khronos e Kairós são palavras usadas pelos gregos antigos para definir duas qualidades/ formas do tempo.

Khronos é o tempo dos homens, da natureza quantitativa, é o tempo medido, linear, cronológico. É o movimento, o mundo fenomenal, separa, une, mata e renasce. Na Psicologia Analítica está associado ao ego, e aqui podemos relacioná-lo ao sentido de urgência na crise profissional

Khronos traz, também, um aspecto tirânico na mitologia grega: o Deus Khronos queria reinar absoluto, e por isso devorava todos os seus filhos, todos os frutos que gerava.

Fazendo uma relação com a nossa vida, temos de fato uma tendência de devorar tudo que imaginamos possa atrapalhar nossos percursos. Assim, num momento de crise profissional, uma das primeiras saídas é desconsiderar toda a trajetória feita, desqualificar toda a experiência, numa tentativa de anular a crise e tudo que ela pode significar.

Finalmente, outro aspecto que ressalto de Khronos é o movimento que, na sua face rápida, impaciente, estimula/promove ações e realizações vazias, superficiais, automáticas e até arrogantes.

Vamos agora falar de Kairós. Trata-se do tempo vivido, em que algo especial acontece, das circunstâncias, das situações de natureza qualitativa, do momento que “tem de ser”. Na Psicologia Analítica Kairós é o tempo simbólico, aponta para algo além de si mesmo. Seria, pois, no caso do trabalho aqui em foco, um tempo que nos aproxima da Alma.

Hillman aborda o Kairós em seu sentido de oportunidade, de abertura penetrável. São dádivas simples e limpas, momentos propícios que precisam ser percebidos através do nosso próprio poder e insight.

Mas Kairós pode também se associar ao elemento do acaso, que traz, num primeiro plano, um sentido de desordem incontrolável e má sorte, muito embora essa descontinuidade possa ser vivida como ordem secreta, que guia nosso destino para além da causalidade.

Nas palavras de Hillman:

Kairós aparece como uma situação, onde situs refere-se à estrutura invisível ou estado das coisas…permite-nos movermos de acordo com a constelação assim como ela está dada e não como deveria ser…de forma que nenhuma situação, nunca, torna-se errada ou impossível, há sempre um caminho ou uma saída.

Vivenciar o entrelaçamento, a combinação, a alquimia desses dois tempos significa ganhar uma possibilidade de enfrentamento da crise, atendendo simultaneamente a urgência e o foco, aqui entendidos como as demandas do ego e a profundidade, como a aproximação da Alma.

No contexto da crise profissional Khronos ajuda a acolher o tempo da experiência vivida, a trajetória feita até o momento da crise, o sentido emergencial. Nessa faceta ele permite um ritmo harmonioso e sequencial da história, o foco nas questões do trabalho, podendo colaborar na discriminação tão necessária em momentos de crise, quando tudo se mistura e não há distinção entre o eu e o outro.

Kairós rompe a linearidade, abre espaço para reflexão, insights, profundidade. Permite viver a crise como uma oportunidade, algo que é, e não mais como algo que não deveria ser. Aciona a sensibilidade para perceber e encontrar caminhos nas próprias dificuldades, nas próprias feridas. Enfim, para que possamos confiar numa espera ativa.

Podemos abarcar, assim, uma dimensão simbólica, em que cada fato que envolve a crise é visto em várias perspectivas, propiciando à consciência perceber a ligação entre a psique individual e coletiva, abrindo caminhos para a transformação. São dimensões arquetípicas daquela crise em particular.

A crise deixa de ser encarada como um túnel escuro, sem saída, onde é preciso mudar tudo, descartar o que já foi feito, começar do zero. Essa visão, ou atitude reducionista baseada na linearidade e na relação puramente de causa e efeito, ganha uma fluidez no tempo e no espaço, sem fixar-se nem no passado nem no futuro, e sim no presente…

Temos, então, a possibilidade de abrir mão das respostas exatas, bem como do imediatismo que tanto procuramos em momentos de crise, para aprender a aceitar as potencialidades e transformar toda e qualquer situação em porta-voz de novas descobertas. Refletir sobre as respostas que deram certo num determinado momento da vida, mas que podem aprisionar e limitar a visão e enrijecer as ações no presente.

De fato, o ego mantém um poder de preservação do conhecido, podendo assim restringir uma atuação mais criativa, pois tudo o que é novo é visto como algo perigoso e ameaçador.

Mas é a partir dele, ego, que a relação com o mundo se estabelece. Com isso, a cada etapa da vida, ele precisa de novas conexões, novas ferramentas, que só são possíveis quando há um aprofundamento, uma entrega ao tempo que não pode ser demarcada, mas que vem na hora que “tem de vir!”.

Na trajetória profissional, a busca do sucesso, do reconhecimento, a conquista de um espaço, de status chega a ser um ato heróico; a condicional é  seguir sempre em frente, sem parar, sem pensar, somente agindo, e o mais rápido possível. A pessoa não percebe o quanto está sendo devorada pelo medo de não conseguir, de não chegar ou mesmo pela ânsia de mais poder, dinheiro e sucesso.

Assim, muito da Alma é desconsiderado e despercebido, criando espaço para o fortalecimento de uma persona, uma máscara baseada somente na reprodução das normas socialmente aceitas, uma roupagem social, que faz esquecer necessidades e desejos mais íntimos. Até que a crise se instala, e a pessoa não consegue responder questões fundamentais, como: “quem sou eu? Para onde estou indo? Para onde quero ir?”.

A ordem cósmica precede à social, o que equivale a dizer que a psique possui uma função ordenadora e reguladora que garante o desenvolvimento e a saúde física, psíquica e espiritual. E durante toda trajetória da vida, recebemos chamados, de diferentes modos, para resgatar o caminho da Alma.

A crise é então, nessa perspectiva, um chamado da Alma, que cobra atitudes autênticas e, ao mesmo tempo, nos auxilia a perceber que ela, a Alma, está vivendo fora do que é esperado para si. Trata-se de um esforço de integração.

Quando a pessoa busca ajuda profissional em um momento de crise, podemos dizer que já está aí um acolhimento do chamado da Alma.

O trabalho de Aconselhamento de Carreira busca aproximar ego e Self/Alma, a trajetória profissional da trajetória da vida, considerando o encontro com a carreira, o trabalho e a profissão como um encontro consigo mesmo.

O terapeuta caminha junto com seu paciente pelos fatos narrados, apreende a maneira como estes foram vivenciados e concebidos, possibilitando a oportunidade de identificar os padrões básicos que norteiam a vida dessa pessoa, os pontos de fragmentação e de indiscriminação, permitindo abrir canais que levem à conscientização de tais padrões e à conexão com conteúdos inconscientes.

Esse desvendar do caminho que vem sendo trilhado pelo profissional é que permite descobrir maneiras novas de agir, as quais, justamente, podem conduzi-lo à integração de aspirações e de sentimentos antes desconectados

Refletir, aprofundar-se, ficar “cara a cara” com os padrões habituais, identificando seus ganhos secundários, é um aprofundamento que permite acessar a multiplicidade da psique e aproximar o ego, passo a passo, das várias possibilidades existentes. Assim, a experiência pessoal pode se vincular ao sentido universal, permitindo acesso a um campo mais amplo e criativo.

Quando os tempos Khronos e Kairós são entrelaçados, o acesso a conteúdos até então inacessíveis é facilitado, permitindo a vivência no mundo concreto, a existência de uma nova forma de olhar a si mesmo, as relações e o mundo. A esse respeito, diz a Prof Dra Maria Ruth Pereira:

Na busca da individualidade o ego não mais percebe-se como um ser isolado, que busca batalhar pela sua afirmação no  mundo, mas sente-se como fazendo parte de comunidade de seres que, juntos, carregam um significado e uma proposta mais ampla.

Por fim, a proposta de trabalho aqui em foco, Aconselhamento de Carreira, busca restabelecer a sintonia das duas dimensões da psique – Ego e Self/Alma -, sem privilegiar uma ou outra, mas sim a partir de um modelo de atuação que permita entrelaçá-las, atendendo às demandas de um momento que é, ao mesmo tempo, pontual e profundo.

Vejo que é imperativo buscar e viver a sintonia entre o tempo de Khronos, que nos prende ao resultado, à linearidade, e o tempo de Kairós, que nos abre para a profundidade, ou, como diz Hillman, para “o cultivo da alma soul-making kairótico. São os momentos que são momentosos, as pérolas, não sua corrente”.