A Simbologia da Doença Celíaca - Um estudo preliminar

A Simbologia da Doença Celíaca

Um estudo preliminar

por Stella Maximo 13/09/2011 Artigos A Simbologia da Doença Celíaca - Um estudo preliminar - Stella Maximo

Introdução
Neste ensaio proponho olhar a Doença Celíaca (DC) numa perspectiva simbólica, tendo como apoio os conceitos da Psicologia Analítica e da Alquimia.

O caminho correto que leva à totalidade é infelizmente feito de desvios e extravios do destino – longíssima via que não é uma reta, mas uma linha que serpenteia, unindo opostos a maneira do caduceu, cujos meandros labirínticos não nos poupam do terror.
Jung (2007, parag. 6)

A motivação para desenvolver o tema partiu de minha própria vivência. A doença faz parte de minha vida há três anos; ou melhor, há três anos a DC se mostrou para mim. São anos de algumas mudanças de hábitos, de desencontros nas opiniões médicas e dificuldade em aceitá-la.

Quanto à Alquimia, iniciar os estudos no curso de formação foi uma grata surpresa. Sem dúvida, me trouxe outra forma de ver as situações que vivo cotidianamente, não só em meu trabalho, e fez brotar o sentimento de que poderia, de alguma maneira, aproximar a DC da Alquimia e com isso abrir um espaço de reflexão mais amplo e profundo, beneficiando não só a mim, mas a todos que são portadores dessa patologia.

Unir questões tão presentes, atuais e novas é, ao mesmo tempo, desafiante e assustador. Mas é com a certeza que cada um de nós recebe uma tarefa que deve ser desempenhada nesta vida que me entrego a este chamado.

O foco será dado em alguns aspectos que envolvem a DC, entre eles a substância desencadeadora do processo alérgico (glúten) e a localização no corpo onde ocorre o processo (aparelho digestivo).

A reflexão sobre estes aspectos da doença poderá contribuir para a ampliação de consciência dos celíacos, na qualidade da relação com a doença, bem como frente às mudanças de hábitos necessárias ao tratamento.

Somado a isso, pelo fato de se tratar de um quadro clínico ainda pouco conhecido pelo público em geral e de difícil diagnóstico, podendo ser confundido com várias outras patologias, este trabalho poderá ajudar no seu esclarecimento.

A Doença Celíaca: características, diagnóstico, incidência e tratamento

Considero necessário fornecer alguns dados, informações e esclarecimentos sobre a doença celíaca (DC), uma vez que ela não é muito conhecida, sendo considerada, na área médica, de difícil diagnóstico.
A DC caracteriza-se por uma intolerância permanente ao glúten (trigo, cevada, centeio, malte e aveia), sendo um distúrbio autoimune desencadeado pela ingestão desta proteína.

A exposição repetida ao glúten faz com que as vilosidades (estruturas do intestino delgado com formato de dedos) se tornem cronicamente inflamadas e danificadas, incapazes de executar sua função normal, que é a de quebrar moléculas dos alimentos e absorver os nutrientes. A discriminação entre substâncias necessárias e desnecessárias ao organismo fica, então, comprometida, podendo desencadear outras doenças, como: osteoporose, dores musculares, fadiga crônica, lesões de pele, convulsões, epilepsia, demência, esquizofrenia e câncer.

Normalmente confundida com outras doenças, pelo fato de seus sintomas estarem presentes em outras disfunções, tais como: diarreia, prisão de ventre, flatulência, inchaço, irritabilidade, a DC é mais facilmente diagnosticada em crianças. Porém, como pode ser assintomática, torna-se silenciosa, passando por um longo período de latência e se expressando após a terceira década da vida.

Embora pouco conhecida pelo público em geral, pesquisas mostram que, nos EUA e Europa, uma em cada 100 a 200 pessoas têm a DC. No Brasil, pesquisa feita pela UNIFESP com doadores de sangue revelou uma incidência de um para cada 214 moradores do estado de São Paulo. Segundo reportagem da revista Scientific American, a DC é cerca de cem vezes mais comum do que se pensava.

No que diz respeito ao tratamento, a conduta médica propõe, apenas, a cessação do agente externo. Assim, ao remover o glúten da dieta alimentar, é desligado o processo da doença.

De fato, a doença impõe uma nova atitude – não só em relação à alimentação, como neste caso, mas na vida. Diante de qualquer sintoma que nos tire do habitual, seja uma simples febre ou outro mais grave, “perdemos o chão”. Quando chega o diagnóstico, percebemos, de maneira abrupta, que não somos os únicos senhores de nossa própria casa. Precisamos olhar além.

A partir da fisiologia da DC, podemos então refletir sobre o seu significado psicológico e ampliar nosso olhar no sentido da totalidade, das interrelações, da reciprocidade entre todas as coisas.

Perspectiva simbólica: a doença como tentativa natural de cura

Para Jung, a doença é um aspecto do si-mesmo que se torna manifesto no corpo/na matéria – o que o corpo faz está acontecendo também na psique. Corpo e alma estão imersos no mesmo processo da vida, sem separações.

A doença poderia também ser vista como uma compensação a uma atitude unilateral da consciência, com a finalidade de conduzir o indivíduo à sua totalidade, integrando aspectos inconscientes.

Os sintomas são, pois, portadores de memórias pessoais e coletivas, arquétipos e instintos dos quais fomos desconectados. A psicologia profunda permite entrar na doença da mesma maneira que ela entrou em nós. É o momento de fortalecermos nosso elo com o inconsciente, e é com um grande esforço que podemos nos reconectar e assim refletir sobre qual o significado da doença.

A base arquetípica dos sintomas revela as raízes mais profundas da psique, sendo o significado simbólico revelado no sintoma pessoal, como destacou Jung em “A Natureza da Psique” – “A sintomatologia de uma doença é ao mesmo tempo uma tentativa natural de cura” (1991, parág. 312).

Neste contexto maior, a sintomatologia oferece ao eu um lugar onde trabalhar e integrar a experiência da doença, abrindo a possibilidade de um relacionamento mais legítimo com esta realidade.

Ao seguir a natureza simbólica dos sintomas, da doença, somos guiados a uma camada arquetípica da psique, em que se faz possível a transformação e a renovação.

O simbolismo alquímico é muito útil na análise dos sintomas corporais. Para o alquimista medieval, o trabalho alquímico iniciava-se com a contenção do material bruto no vaso alquímico, havendo depois uma descida às profundezas sombrias dessa matéria para encontrar o valor perdido escondido dentro dela. Metaforicamente, um indivíduo aprofunda-se em certa doença como se fosse um alquimista a procura do espírito preso na matéria. Esse é um comprometimento heróico.
(Rothenberg,2004, p. 23)

As leituras simbólica e alquímica trazem a possibilidade de adentramos no sentido da alma, sendo guiados não mais pelas bulas de medicamentos, buscas das causas, eliminação dos sintomas, mas sim pela vibração de cada som produzido pelo movimento único que corpo e alma fazem na dança da vida.

Segundo Dalke (2007), os sintomas são as imagens da doença; assim como outras imagens, eles não podem ser compreendidos através da análise do material, mas por meio da observação contemplativa de sua totalidade. Aqui “todos os detalhes devem unir-se em uma impressão geral. O todo é mais que a soma das partes” (op. cit., p. 27)

De fato, essas imagens “chegam à consciência como expressão de possíveis conflitos e ao mesmo tempo há uma tentativa de chamar a atenção do indivíduo para sua realidade conflitiva e para o desvio do ego da sua totalidade” (Ramos, 1990, p. 44)

Como na Alquimia, o caminho da alma também nem sempre é fácil e doce – a vida requer dedicação, intenção, sinceridade e paciência.

Para iniciar um caminho de reflexão, com apoio na visão simbólica, abordo a seguir alguns aspectos da DC que podem levar a futuros aprofundamentos.

Uma leitura simbólica da DC: pistas para estudos futuros

Uma das características da DC é a inflamação no intestino delgado, a qual altera a discriminação na absorção dos nutrientes; isto é, ocorre a absorção do que não é necessário ou mesmo daquilo que faz mal, sendo eliminado justamente o que é fundamental para o funcionamento do organismo.

Metaforicamente, podemos pensar como os celíacos estão se relacionando com o mundo e com eles próprios, como o processo de discriminação está em curso e com qual qualidade estão absorvendo o que vêm recebendo na sua relação com o mundo e consigo mesmos.

Quantas são as verdades que carregamos ao longo do tempo em nossas vidas, sem questionamentos, acreditando que estamos sem opções, sem saídas? Quantas vezes nos surpreendemos com fatos e situações que tínhamos como verdade e acabam se revelando de forma diferente?

A discriminação a partir das relações eu-tu e eu-eu é, sem dúvida, um dos pontos mais trabalhados no processo de análise, visando à ampliação da consciência.

Outro ponto a ser visto diz respeito à substância desencadeadora do processo da DC – o glúten. O trigo é o alimento que marca a agricultura desde os tempos antigos e a própria civilização.

Presente em vários mitos – na Grécia, em Deméter e no Egito, em Osíris – o trigo carrega um aspecto numinoso e é um dos principais símbolos do cristianismo (pão).

Frente a isso, podemos analogamente dizer que este aspecto da sintomatologia nos aproxima do inconsciente coletivo, dos arquétipos, mas é no nível da consciência individual que podemos transpor essas imagens arquetípicas.

Como diz Jung: “A alma possui a dignidade de um ser que tem o dom da relação consciente com a divindade” (2007,.parag 11).

Ramos (1990, p. 50) complementa esse dizer junguiano, afirmando: “… as amplificações do corpo simbólico nos aproximam cada vez mais da imagem do Corpo Divino, Self”.

Com isso, podemos pensar simbolicamente a DC como um dos caminhos de transformação dos pares de opostos humano e divino, existentes em cada um de nós.

No que diz respeito à cura, sendo a DC desencadeada por substâncias que ingerimos – alimentos com glúten -, o processo é suspenso pela retirada delas da dieta.

Neste sentido, o corpo humano pode ser visto como um verdadeiro laboratório alquímico1, em que se faz presente a correlação entre o macrocosmo (natureza) e o microcosmo (indivíduo), numa ação de reciprocidade entre as coisas, em que tudo está relacionado a tudo.

Na Alquimia, como ressaltado por Salvo e Ventra 1997, p.80): “O Homem possui no seu próprio ser o elemento divino e, portanto, se estiver doente, é neste nível que se deverá restabelecer a harmonia, mais que ao nível físico e material”.

De fato, aqui, não há intermediários, caminhos imediatos, confortantes, como a ingestão de drogas/medicamentos – toma-se um comprimido e tudo parece estar resolvido. O caminho de cura é outro.

A cura pela cessação chama atenção para uma mudança de atitude frente à doença, no sentido de que não há atalhos ou formas de burlar o acometimento. A mudança aqui tem um caráter efetivo, pois a volta ao padrão antigo (ingestão de glúten) leva, de imediato, ao retorno dos sintomas da doença.

Lembrando que nossa alimentação ocidental está baseada no trigo e que a grande maioria dos alimentos a nossa volta contém glúten, essa mudança de dieta alimentar complica a vida cotidiana e também as dinâmicas familiares. O simples evento ou ritual da pizza nos finais de semana, por exemplo, torna-se complicado – as substituições não agradam em sabor e são de difícil preparo.

A partir disso, a mudança de hábito que se faz necessária no “processo de cura” da DC me parece um dos aspectos mais difíceis e desafiadores. Trata-se de um profundo processo de transformação que podemos aproximar do sacrifício presente em todo caminho de individuação.

Já dizia Paracelso: “O corpo humano é um laboratório químico”.

Como o sintoma é símbolo que, segundo Ramos (op. cit.), expressa uma dissociação ou um caminho, cabe ao ego atribuir um significado a ele, sendo que, sem a consciência do significado, há uma alta probabilidade de o sintoma reaparecer.

Neste ponto, cabe ressaltar que toda e qualquer experiência, uma vez ocorrida e sentida, deixa permanentemente sua marca na psique, na alma. Assim, a necessidade de integrar nossas vivências, inclusive as mais difíceis e frustrantes, torna-se presente e imediata na simbologia do processo de cura da DC.

Temos, com isso, a oportunidade de acessarmos a nós mesmos por outro prisma, permitindo o resgate de “coisas” que, por algum motivo, foram esquecidas, negadas, abandonadas ou ainda não nos são conhecidas.

O símbolo pode ser revelado pelo sofrimento – no caso da DC, a mudança de hábito alimentar aponta para um significado e assim nos leva a refletir sobre o que deve ser sacrificado.

Compreender o sentido do sacrifício é criar uma forma de lidar com esta particularidade: novos paladares, necessidades e desejos. A DC leva o indivíduo a ficar frente a frente com sua individualidade.

Somado a isso, o corpo se torna mais presente; ou seja, o sintoma também leva a uma maior consciência corporal e pode reposicioná-lo no processo de individuação (Ramos, op. cit.), assim estabelecendo uma conexão mais integrada corpo/alma.

Finalizo este ensaio preliminar com a certeza da importância para todos, celíacos ou não, de desenvolver uma atitude mais solidária, e atenta, com os pontos cristalizados, e ter assim uma maior liberdade para acessar tais conteúdos, os quais sabemos de antemão o quão difíceis são, mas possíveis de serem vistos de uma nova perspectiva.

Aqui, vale nos lembrarmos da paciência do alquimista, da importância da espera, do tempo certo, do passa a passo, do pouco a pouco. Cada uma das situações que a DC nos leva a enfrentar, como a retirada do glúten da alimentação, é sem dúvida uma oportunidade de aproximação da alma e de aprimoramento do autoconhecimento.

Bibliografia

Dalke,Rudiger – A doença como liguagem da alma – Ed. Cultrix,2007

Edinger, Edward F – Anatomia da Psique – Ed Cultrix, 2001

Jung, Cal Gustav
Psicologia e Alquimia Vol XII – Ed Vozes, 2007
Estudos Alquímicos Vol XII – Ed. Vozes, 2003
Natureza da Psique Vol VIII-2– Ed. Vozes, 1991

Ramos, Denise Gimenez – A psique do coração – Ed. Cultrix, 1990

Rothenberg, Rose-Emily – A Jóia da ferida – Ed. Paulus, 2004

Ventra e Salvo, Giuseppe e Maria – Alquimia Spagírica Paracelso – Ed. Sohaku-inEdições, 1997

Revista Scientific American – Editora Dueto – Ed. setembro 2009