A alma atraente - um pouco da história de Chiquinha Gonzada

A alma atraente

um pouco da história de Chiquinha Gonzada

por Stella Maximo 10/08/2015 Artigos A alma atraente - um pouco da história de Chiquinha Gonzada - Stella Maximo
Tags: alma, feminino, mulher

Sou uma pessoa que gosta de música, porém muito pouco conhecedora de compositores e suas obras. Nesse quesito parece que parei um tanto no tempo, as músicas de que gosto e de que me lembro são da minha época de juventude.

Nesta fase, inclusive, tive vontade de aprender a tocar violão, mas os recursos financeiros da época não me permitiram. E quando comecei a trabalhar, aí foi o recurso tempo. Já na fase adulta, busquei uma nova maneira de me aproximar da música – estudei por dois anos violino, foi um desafio, mas foi muito gratificante aprender a ler a partitura e “ tocar” as músicas. Mas não consegui manter a disciplina necessária.

Pensei então que falar de Chiquinha Gonzaga, a princípio, me proporcionaria um novo encontro com a musicalidade, uma oportunidade de preencher um pouquinho mais uma lacuna existente em mim. Mas na verdade, confesso que foi mais do que isso, pois fui tocada por esta mulher inspiradora.

Minha primeira inquietação se apresentou quando me indaguei como poderia abordar sua vida, que recorte fazer de sua história que, afinal, faz parte de nossa memória coletiva, já tendo sido tão escrita, encenada, estudada. Uma história longeva, com muitas nuances tanto na vida pessoal, social como profissional. Uma vida intensa de amores e romances polêmicos. Aos 52 anos, por exemplo, Chiquinha conheceu um jovem português de 16 anos, que se tornou seu companheiro até sua morte. E no âmbito do trabalho, foram inúmeras conquistas. Para se ter uma ideia do tamanho da obra de Chiquinha, hoje estão reunidas e disponíveis para consulta 300 partituras no acervo digital da compositora (www.chiquinhagonzaga.com).

Então, resolvi começar pelo primeiro sucesso de Chiquinha, sua música “Atraente”, uma Polca que ganhou o público, sendo ouvida, cantada e assobiada na cidade carioca, nos idos 1847. Chiquinha tinha então 29 anos e talvez nem ela esperasse um sucesso tão imediato. Vamos à canção:

Rebola bola e atraente vai

Esmigalhando os corações com o pé

E no seu passo apressadinho, tão miúdo,

Atrevidinho,

Vai sujando o meu caminho, desfolhando o mau me quer

Se bem que quer, seja se quer ou não

Bem reticente, ela só faz calar

Ela é tão falsa e renitente, que até

Atrai só o seu pensar.

Como é danada

Perigosa

Vaidosa

Desastrosa

Escandalosa

Rancorosa

E

Rancorosa

Incestuosa

E tão nervosa

E bota tudo em polvorosa, quando chega belicosa

Bota tudo pra perder

Amour, amour

Tu jure amour, tre bien

Mas joga fora esta conversa vã

Não vem jogar fla-flu no meu maracanã

Não sou juju balangandã

Meu coração porém diz que não vai

Suportar esta maldita, inenarrável solidão

Se assim for, ele vai se esbodegar

E te ver se despinguelar numa desilusão!

O título e a letra desta canção também me agradaram e acredito que com ela possamos pensar em Chiquinha e em sua representatividade histórica, principalmente, no que diz respeito à transformação do papel das mulheres. Podemos imaginar então o que significou compor uma letra como essa, tocar e cantar este tipo de música no Brasil, do final do século XIX.

Quem seria, afinal, essa moça danada, perigosa, vaidosa, que causa tanto desastre quando chega com seu passo apressadinho?

Naquele tempo, as mulheres eram educadas para se tornarem esposas e mães; os casamentos, por sua vez, eram acordados entre as famílias e, deste modo, o destino para uma mulher já estava traçado. E com Chiquinha não poderia ter sido diferente, como qualquer outra sinhazinha do Segundo Reinado. Moça de “boa família”, foi educada, dentro dos padrões rigorosos impostos pela estrutura patriarcal da época, para ser uma dama, dona de casa e mãe de família.

Quanto ao piano, naquela época tornou-se um indicador de status social e, portanto, estava entre os presentes de núpcias mais estimados no Brasil Imperial; foi justamente este o presente que seu pai lhe deu como dote de casamento. Num primeiro momento, o piano tinha como função distrair as senhoras casadas, já que tinham muito pouco a fazer. Era o que deveria ser também para Chiquinha, mas não foi só para isso que o piano entrou em sua vida, como veremos mais adiante.

Seu casamento aconteceu em 5/11/1863, com o jovem Jacinto Ribeiro Amaral; o casal teve 3 filhos, dois homens e uma mulher. Contudo, Chiquinha não era uma mulher comum, ao contrário, era inquieta e determinada e por mais que buscasse atender às convenções do casamento, não conseguiu conciliá-lo com seus interesses, seus sonhos e suas necessidades.

Atreveu e arriscou-se em nome de sua individualidade.

Entregou-se ao amor de outro homem, rompeu com seu casamento, teve uma filha deste novo relacionamento e, por ter abandonado o lar e cometido adultério, sofreu um processo de “divórcio perpétuo” movido pelo ex-marido no Tribunal Eclesiástico, em 1875, aos 27 anos. Vale lembrar que, naquela época, o divórcio era algo raríssimo, tanto que só foi estabelecido como direito civil, no Brasil, após um século (1877 – 1977).

Este foi o primeiro rompimento de Chiquinha com as tradições institucionalizadas da época; muitos outros viriam no decorrer de sua vida; arrisco a dizer que foi um divisor de águas que mudou completamente sua trajetória. Sozinha após o término deste caso de amor, começou a lutar com força por sua sobrevivência. Então, tomou em suas mãos seus conhecimentos de piano, sua vocação e gosto pela música, mostrando que era possível manter-se fora da tutela do casamento e de um homem.

E mais, numa alquimia de amor, talento e necessidades, surgiu algo criativo e inédito. Chiquinha tornou-se uma mulher com profissão: pianeira e compositora de música de dança.

Não tardou para conquistar seu primeiro de muitos outros sucessos, que, no caso da polca Atraente, foi instantâneo e estrondoso, tanto que, para muitos, não passou de um escândalo e de uma provocação. Inclusive, o título da canção e os adjetivos atribuídos à personagem feminina foram associados maldosamente à jovem e bela compositora. Aqui, percebemos claramente os efeitos dos valores enrijecidos daquela época, quando sucesso e notoriedade para uma mulher ainda eram sinônimos de má fama!

Penso que essas reações opostas e concomitantes de admiração e repúdio frente ao sucesso escandaloso e cativante de Chiquinha apontam para uma possível saturação dos valores daquela época, marcando, quem sabe, o início de um processo de transformação e de mudanças. Ora, por um lado, vemos as iniciativas individuais e inovadoras dessa mulher, expressas na letra de “Atraente”; por outro, ao mesmo tempo em que adere a esse novo, a sociedade tende também a uma reação defensiva, mostrando-se ambivalente frente a tudo que sai da norma. Sim, apesar de embrionárias, as transformações já estavam em curso. A fase de forte hostilidade a Chiquinha duraria por mais 8 anos…

A polca “Atraente” também nos conta dos sentimentos que se fazem presentes num encontro entre homem e mulher, mas não daquele convencionado, demarcado e arranjado por terceiros. Trata-se de um encontro movido pela sedução e que, com sua sensibilidade, Chiquinha traz à luz, falando dos sentimentos proibidos, que atraem e assustam ao mesmo tempo; daquele gosto do novo que excita e provoca, mas amedronta; da vontade de estar junto, de se entregar e, ao mesmo tempo o pavor de uma possível desilusão.

Na canção, Chiquinha dá voz a um homem que se perturba, titubeia ao entrar no campo da conquista e do amor, longe daquele lugar seguro e acomodado das relações politicamente arranjadas ou dos prazeres socialmente permitidos, distante daquela faceta impregnada de machismo, autoritarismo dos homens daquela época.

Fala-nos sobre um aspecto diferente da mulher, ou mesmo de aspectos escondidos atrás do papel secundário e fútil reservado a ela naquela época, através da visão deste homem inseguro, que podemos, também, entender, como uma visão do coletivo. Chiquinha conseguiu, assim, mostrar outras facetas da mulher que eram deixadas à margem e rechaçadas socialmente, inclusive pelas próprias mulheres: a sedutora, danada, desastrosa, até a nervosa, rancorosa, chegando a falsa, perigosa, belicosa.

Chiquinha conheceu bem de perto o preconceito e, sem dúvida, sofreu com seus desdobramentos; sabia que era vista por uma lente que a colocava fora do lugar comum, fora da convenção, à margem da sociedade elitista da época. Mas nem por isso deixou de denunciar como a mulher era percebida de modo parcial e distorcido por esta sociedade.

De certa maneira, aqui podemos sentir uma proximidade do Brasil republicano do final do século XIX, de Chiquinha, com o mundo de hoje, do século XXI, em que ainda muitas mulheres são mal interpretadas, mal-entendidas, excluídas e punidas, quando rompem com o convencional para dar voz à intimidade, individualidade, numa palavra: à Alma. Aos olhos da sociedade, nesses momentos, as mulheres não passam de vaidosas, escandalosas, inconvenientes, lembrando mais uma vez os adjetivos usados pela compositora.

Essa proximidade entre passado e presente também pode ser vista em alguns dos fatos que ocorreram com Chiquinha, em decorrência do seu sucesso e do que ela falava em suas músicas. Um deles estava na maneira como se vestia, fora do convencional. Na época, as mulheres usavam chapéus, como símbolo de status e respeito, mas Chiquinha, por não ter dinheiro para comprar este acessório, ousou mais uma vez, e substituiu os caros chapéus por lenços; por isso, chegou a ser xingada e agredida por outras mulheres. Ocorreu também que suas partituras foram queimadas a mando de seus familiares, como ato de repúdio e punição ao seu trabalho. Infelizmente, ainda hoje vemos mulheres sendo mutiladas no corpo e na alma, por quererem expressar seus sentimentos e buscar espaço para a realização de seus talentos.

Pergunto, então: aonde pode chegar a crueldade e o desprezo pelo diferente? Aonde pode chegar um mundo sem alma?

Sinto que Chiquinha não se desviou dessas perguntas, nem dos obstáculos e muito menos dos seus sentimentos; ao contrário, deixou-se falar a partir deles. Compor “Atrevida” pode ter sido, entre tantas coisas, um atrevimento, por mostrar que não temia falar deste outro lugar em busca de uma mulher mais livre e mais completa.

Chiquinha continuou seu caminho e tornou-se um exemplo de inspiração para muitas outras mulheres depois dela, que não se calaram e ousaram enfrentar as verdades absolutas, restritivas e violentas. E, hoje, muitas mulheres continuam nesse caminho que ainda se faz tão necessário….

Sem dúvida, a história de vida de Chiquinha se torna um exemplo atemporal e, portanto, muito atual. Um exemplo de mulher afinada com sua intimidade, com sua alma e segura para olhar e compor o mundo ao seu redor, inclusive musicalizando suas vivências, percepções, seus sentimentos, anseios e medos.

Atrevida, corajosa, segura, autêntica: essa foi Chiquinha. Com humor e alegria, conseguiu abrir espaços para os lados mais sombrios do homem e da mulher. E nos fala, com naturalidade, o que pode acontecer quando os valores arraigados e impregnados, que muitas vezes paralisam nossa psique, são quebrados.

Que parceria com a Alma!!!

Essa compositora abriu alas para a música brasileira com sua verdadeira devoção pelo que era popular e nacional; não se satisfez somente com as composições, buscou mais e foi além. Tornou-se a primeira maestrina, em 1885, aos 38 anos, e curiosamente, como na época esta era uma profissão reservada somente aos homens, houve dificuldades em nomeá-la no gênero feminino.

Sem lições prévias, escreveu um novo modo de ser e de viver da mulher.

Criativa, inventiva, múltipla conseguiu caminhar em mundos muito diferentes, desde casas de famílias, como professora de piano, onde a princípio tirava seu sustento, até a boemia, onde se sentia acolhida e tinha espaço e receptividade para suas inspirações, tanto que incluiu o piano no Choro, sendo a primeira pianeira deste estilo de canção ao lado de flautas e violões.

Cabe lembrar que, para pertencer à boemia, era preciso ser inteligente e brilhante. O boêmio era distinguido como indivíduo culto e, portanto, admirado num país com índices alarmantes de analfabetismo; já para a mulher boemia, o mesmo não valia este seu comportamento se resumia num afronto.

Afronto? Para Chiquinha? Ela sabia como lidar de frente com essas barreiras, e mais, sabia como ninguém captar o gosto popular e agradar ao público com sua música.

Segundo sua biográfa Edinha Diniz, muitos foram os fatores envolvidos na identificação de Chiquinha com a produção popular: sua condição de classe, sua limitada formação musical, sua personalidade impetuosa e rebelde, as influências dos amigos da música.

Chiquinha Gonzaga conquistou espaço num tempo sem espaços para as mulheres, conquistou respeito, num momento em que não tínhamos direito à voz. Representou muitas mulheres, lutou pelas causas sociais e fundou, em 1917, a primeira sociedade protetora e arrecadadora de direitos autorais do país, a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais.

Mais uma vez, o inédito esteve presente em sua vida! Não tenho dúvidas, Chiquinha estava além de seu tempo…

Quando a alma toma seu curso na vida de uma pessoa, como vemos na da Chiquinha, não tem como alguém, no seu retrocesso, interromper, já está em curso. De fato, nada impediu a força da Alma e do encontro consigo mesma…Ela compôs até os 85 anos de idade. Sua última partitura intitulava-se “Maria”. E, em 1935, no sábado de carnaval, morreu no Rio de Janeiro, aos 87 anos.

Muitas mulheres vieram depois de Chiquinha, nós, aqui, somos exemplo disso. Mas ouso dizer que ainda se trata de uma minoria. Então que nos inspiremos nesta brilhante e criativa história.

E para finalizar, mais uma das composições de sucesso: “Machuca”

Sou morena bonita e galante

Tenho raios e setas no olhar

E nem pode uma lira de Dante

Os encantos que tenho cantar

Quando passo, os bilontras me olhando

De binóculo erguido com ardor

Dizem todos se bamboleando

Abrasados em chama de amor

Ai morena, morena querida

Tu nos põe a cabeça maluca

Pisa e mata, destrói essa vida

Ai morena, morena, machuca!

Eu machuco deveras a todos

Até fico contente por isso

Ao fitá-los os deixo por loucos

Pois fitando-os lhe deito o feitiço

Sou morena que quando passeio

Deixo calda de luz como um astro

É uma récua de gente que veio

Me dizendo, seguindo meu rastro

Ai morena, morena querida

Tu nos põe a cabeça maluca

Pisa e mata, destrói essa vida

Ai morena, morena, machuca!

Esses fogos que tenho nos olhos

E que tem até o dom de encantar

São na vida, no mundo os espólios

Onde os petos se vêm quebrar

Mas a culpa não é, não é minha

É dos homens que vêm com ardor

Me julgando dos céus a rainha

Me dizendo abrasados de amor

Ai morena, morena querida

Tu nos põe a cabeça maluca

Pisa e mata, destrói essa vida

Ai morena, morena, machuca!