A varanda aqui de casa…

A varanda aqui de casa…

por Stella Maximo 08/06/2020 Biblioteca A varanda aqui de casa… - Stella Maximo
Tags: alma, memorias, recordações

Nesses momentos dentro de nós, a aflição bate forte. Não é para menos. Como todos no mundo, estou metida em algo que não escolhi, trancada em casa. Desde o primeiro dia, sabia que essa não seria uma tarefa tão fácil assim.

Às vezes, me pego pensando naquela agenda que seguia antes de tudo chegar e me colocar nesse lugar tão diferente, e o quanto ela também me metia em outros lugares, num mundo que andam dizendo que não irá mais existir. Hoje, penso que também essa agenda não foi escolha minha.

Angústia, incerteza, ansiedade… receita nova, arruma armário, faz faxina, inúmeros e-books disponíveis, lives, cursos. Produtividade de novo? Confesso que, no último mês, sobra cansaço da rotina intermediada pelo computador. Depois do trabalho exaustivo, a única coisa que desejo é fechar a tela e ficar em silêncio.

Exaurida, vou encontrando outra casa a cada manhã. Adaptação? Pode ser. No fundo, sinto certa intimidade nascendo entre nós duas, apesar de conhecê-la não menos do que uns 25 anos. Ela, a casa, e nela, a varanda…

No ano passado, dei a louca e redecorei a varanda, pensando em ter um pouco do espírito do interior aqui na cidade grande. Ficou linda de olhar! Só que, até então, não tinha me dado a chance de me sentar no lindo banco de madeira que escolhi cuidadosamente num dia de verão. Só de olhar parecia que já estava tudo bom, ou até ótimo, mas o fato é que a outra agenda me deixava lá fora e não aqui dentro…

O tamanho da minha varanda comparado à amplitude da casa do interior só faz sentido se a métrica for lógica e por metro quadrado. Hoje, sua grandeza está no prazer que sinto toda vez que me sento no banco rústico, pintado de cores pastéis – azul, amarelo, vermelho -, nos poucos intervalos que tenho na agenda lotada.

Aos poucos, fui me permitindo ser habitada pela varanda: passei a tomar o segundo café da manhã com ela, a sobremesa do almoço, o lanchinho da tarde quando possível, e a cheirar as flores nos vasos à noitinha.

A minha varanda me permite sentir o sol, ver o céu e ser tocada pelo vento. Ah! Como gosto do toque suave do vento, que me arrepia dos pés à cabeça. Nesses dias aqui em casa, ele foi chegando um tanto diferente, veio carregando um tanto de nostalgia.

No banco,  as recordações fluem. Mesmo tendo sido modernizada com porcelanatos, acessórios mais contemporâneos, e sem as redes de proteção, minha varanda continua sendo ela mesma, com suas pastilhas brancas e azuis e as plantas que de tempos em tempos mudam de tamanho, formato e variedade.

É … ela sempre esteve com a gente, mesmo quando era só um vasinho. Fazíamos churrasco e ficávamos a tarde toda conversando, rindo, unidos. Era muito divertido. Naquela ocasião, acreditava que o tempo era infinito ou pelo menos tinha muito dele pela frente, e com esforço poderia ir longe, muito longe.

Hoje continuo me esforçando, mas sei que há muitas coisas invisíveis e que não controlamos, e que o certo está longe do certo de que nos impomos como certo. E me vejo mais perto do nunca da minha varanda.

Essa intimidade entre mim, a casa e a varanda se tornou o meu combustível. Nela ganho ar fresco e uma luminosidade diferente, que me remete ao tempo em que eu a via grande em metros quadrados. Hoje, porém, vivo sua grandeza de acolher memórias da minha história e vida. Ainda bem que tive tempo de perceber isso.

Antes, a mesinha era de ferro branco, e as crianças de uniforme da escola lá brincavam; penso que era tempo de crescimento. Hoje, tem lírio amarelo e lavanda, e sei que é um tempo de aprofundamento. Gosto da ideia do tempo ter aromas que se misturam ao amor.

A varanda tornou-se espaço de nostalgia, do colo que conforta, do tempo para centrar, de histórias para alicerçar. Sem dúvida, ela é um espaço de acolhimento nesse tempo tão inédito. Entre lírios e lavanda, as memórias ficam mais vivas, tanto que escuto as risadas dos meus filhos, vejo a bruxinha, o super herói e as caras pintadas de palhaço.

Nesse tempo dentro de casa, a varanda me ajuda a ficar presente, a redescobrir a casa, reexperimentar minha história e me ver, me ver, me ver…

No meio de tanta dor, as casas e varandas podem ajudar a realçar o amor, os encontros que a vida nos deu, tirar as histórias dos armários, lembrar dos sorrisos, das brincadeiras simples, dos perrengues, do carinho, da palavra. É uma mistura de passado, presente e futuro, de emoções que vibram por todos os lados, me sacodem e me acalmam. No banco de madeira, a visão é turva, mas me traz novos olhares.

Estou aqui, presente. Os aromas da lavanda e do lírio amarelo inebriam, fecho os olhos, sinto a serenidade se aproximar da minha varanda e alimentar minha alma…

Stella Maximo, abril de 2020